O cérebro humano não ficou maior e mais complexo apenas porque passou a produzir mais neurônios. Durante o desenvolvimento embrionário, algumas células precursoras adquiriram características capazes de ampliar sua capacidade de gerar novas células nervosas e, ao mesmo tempo, modificar sua própria estrutura. Entre elas estão as células da glia radial basal, consideradas peças importantes para entender como o neocórtex humano evoluiu.
Um novo estudo comparativo investigou justamente essas células em humanos, chimpanzés e gorilas. Os resultados indicam que parte das diferenças entre essas espécies pode estar relacionada não apenas aos genes presentes no DNA, mas também à maneira como determinadas regiões reguladoras controlam esses genes.
As células que ajudam a construir o neocórtex
Durante o desenvolvimento do cérebro, diferentes tipos de células progenitoras neurais participam da formação do córtex. As gliais radiais apicais ficam próximas aos ventrículos cerebrais, enquanto as gliais radiais basais, também chamadas de gliais radiais externas, ocupam regiões mais afastadas dessa superfície.
Essas células são particularmente interessantes porque apresentam capacidade de proliferação e podem originar grandes quantidades de neurônios. Além disso, sua morfologia, ou seja, o formato e a organização de suas extensões celulares, está relacionada à sua atividade durante o desenvolvimento cerebral.
Por isso, alterações na quantidade, na proliferação e na complexidade dessas células podem ter consequências importantes para o tamanho e a organização do neocórtex.
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Entrar no Canal do WhatsAppHumanos, chimpanzés e gorilas revelam uma diferença importante
Publicado em 9 de outubro de 2026 na revista Nature Communications, com Theresa M. Schütze como primeira autora, o estudo utilizou organoides cerebrais tridimensionais derivados de células-tronco de humanos, chimpanzés e gorilas para comparar a atividade genética durante o desenvolvimento cortical.
A equipe analisou tanto a expressão gênica quanto a acessibilidade da cromatina, uma característica que ajuda a indicar quais regiões do DNA estão disponíveis para regular a atividade dos genes.
A comparação revelou centenas de regiões reguladoras com maior atividade nas células da glia radial basal humanas. Essas regiões estavam associadas a genes envolvidos em processos como desenvolvimento neural, migração celular, organização das conexões e, especialmente, controle da morfologia celular.
O resultado é particularmente interessante porque algumas dessas células humanas apresentaram uma atividade molecular relacionada a programas que normalmente aparecem em neurônios, sugerindo que determinados mecanismos ancestrais podem ter sido aproveitados durante a evolução para modificar o comportamento das células progenitoras.
FAM107A e CNGA3 entram em cena
Entre os genes investigados, dois chamaram atenção: FAM107A e CNGA3. O primeiro está relacionado a uma proteína associada ao citoesqueleto celular, enquanto o segundo codifica um canal iônico ativado por GMP cíclico. Nos organoides humanos, ambos participaram da complexidade morfológica das células da glia radial basal.
Quando os pesquisadores eliminaram esses genes utilizando edição genética, observaram uma redução na proporção de células com estruturas mais complexas. No caso de FAM107A, a alteração também esteve associada a uma diminuição no número de determinados neurônios produzidos no organoide.
Isso ajuda a explicar uma possibilidade fascinante: a arquitetura das células progenitoras pode influenciar quantos neurônios são produzidos durante a formação do cérebro.
As extensões da glia radial basal também podem ampliar o contato dessas células com diferentes sinais presentes no tecido em desenvolvimento. Assim, uma estrutura celular mais elaborada poderia proporcionar acesso a uma variedade maior de estímulos capazes de influenciar proliferação e desenvolvimento.
Uma pista sobre a evolução do cérebro humano
Os resultados não significam que exista um único gene responsável pela inteligência humana ou pelo tamanho do cérebro. A evolução do neocórtex envolve uma rede complexa de genes, regiões reguladoras e processos celulares.
O estudo, porém, apresenta uma peça importante desse quebra-cabeça: diferenças na regulação de genes compartilhados entre grandes primatas podem ter contribuído para características particulares das células progenitoras humanas.
Nesse cenário, a glia radial basal aparece como uma espécie de plataforma celular capaz de conectar alterações na regulação do DNA com mudanças na estrutura do tecido cerebral. E, ao longo da evolução, pequenas diferenças nesses mecanismos podem ter ajudado a construir um neocórtex com mais neurônios, maior complexidade estrutural e circuitos extremamente sofisticados.
