Existe uma fronteira curiosa entre estrelas e planetas onde a natureza parece desafiar as categorias tradicionais. É justamente nessa região que o Telescópio Espacial James Webb encontrou alguns dos objetos mais intrigantes já observados.
Na região de formação estelar IC 348, localizada a cerca de 1.000 anos-luz da Terra, o observatório identificou anãs marrons com aproximadamente duas vezes a massa de Júpiter. O tamanho estimado é surpreendente porque esses objetos se formam pelo colapso de nuvens de gás, como as estrelas, mas não conseguem iniciar a fusão sustentada de hidrogênio necessária para se tornarem estrelas.
Uma fronteira estranha entre planeta e estrela
As anãs marrons ocupam uma posição intermediária. Elas são mais massivas que os planetas gigantes, mas não atingem as condições necessárias para funcionar como estrelas.
Normalmente, os modelos de formação estelar indicam que existe um limite inferior para o tamanho dos objetos que conseguem surgir diretamente do colapso de uma nuvem molecular. Entretanto, as novas observações de IC 348 levaram essa fronteira para uma região inesperadamente baixa.
Os objetos recém-identificados possuem apenas cerca de 0,19% da massa do Sol. Em comparação, Júpiter sozinho tem aproximadamente 0,1% da massa solar.
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Entrar no Canal do WhatsAppIsso significa que estamos diante de corpos que possuem massa comparável à de um planeta gigante, mas que aparentemente surgiram em um ambiente de formação estelar.
O Webb enxergou algo que os modelos não esperavam
A equipe utilizou a NIRCam, câmera de infravermelho próximo do Webb, para procurar objetos muito fracos dentro de IC 348. As candidatas foram selecionadas com base em características como brilho e cores.
Depois, o instrumento NIRSpec foi utilizado para obter espectros e investigar com maior precisão a natureza desses objetos.
O levantamento encontrou nove novas anãs marrons na região. As menores apresentaram estimativas de aproximadamente duas massas de Júpiter, tornando-as as anãs marrons menos massivas conhecidas até o momento.
Uma delas pode ter um disco formando planetas
A descoberta fica ainda mais interessante quando os astrônomos analisam os arredores dessas anãs marrons.
Uma das menores apresentou sinais de um disco de material ao seu redor. Esses discos são compostos por gás e poeira e estão associados aos ambientes onde planetas podem nascer.
Se a interpretação estiver correta, significa que um objeto com apenas cerca de duas massas de Júpiter pode possuir ao redor de si material suficiente para participar de processos semelhantes aos envolvidos na formação planetária.
A possibilidade é especialmente intrigante porque o próprio objeto central já possui massa comparável à de um planeta gigante.
Um novo tipo de atmosfera apareceu no infravermelho
O Webb também encontrou outra pista inesperada. Os espectros das anãs marrons mais leves apresentam uma característica atribuída a um hidrocarboneto ainda não identificado.
O sinal aparece principalmente nos objetos mais frios e menos massivos. A equipe propôs que essas características poderiam justificar uma nova classe espectral chamada H, definida pela presença de uma faixa de absorção associada ao hidrocarboneto.
O estudo que descreveu essa proposta foi publicado por Kevin L. Luhman e Catarina Alves de Oliveira em 10 de junho de 2025, no The Astrophysical Journal Letters. A pesquisa utilizou observações do James Webb para ampliar a busca por objetos subestelares em IC 348.
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A formação estelar acaba de ganhar uma nova pergunta
A descoberta não significa que os modelos atuais estejam simplesmente errados. Ela mostra que a formação de objetos subestelares pode ocorrer em uma faixa de massas mais ampla do que se imaginava.
Além disso, ainda existem incertezas nas estimativas de massa, que dependem de modelos evolutivos aplicados a objetos muito jovens.
Mesmo assim, encontrar anãs marrons com apenas duas massas de Júpiter é uma pista poderosa. O James Webb está permitindo observar o nascimento de objetos que ficam na fronteira entre planetas e estrelas, justamente em uma região onde as teorias ainda têm muito a explicar.
