Sonda Solar Orbiter encontra uma fronteira invisível que muda partículas do Sol 

Sonda investiga partículas liberadas continuamente pelo Sol. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

O vento solar parece invisível, mas está constantemente atravessando o Sistema Solar em velocidades que podem superar 1,6 milhão de quilômetros por hora. Agora, uma observação feita pela sonda Solar Orbiter encontrou uma pista importante sobre o que acontece com essas partículas antes de elas se espalharem pelo espaço.

O resultado chama atenção porque a descoberta ocorreu em uma região extremamente próxima do Sol, onde o material ainda preserva características relacionadas à sua origem na atmosfera solar. Ali, pesquisadores identificaram uma mudança organizada na composição dos íons justamente onde o campo magnético solar muda de direção.

A descoberta pode ajudar a explicar melhor como a coroa do Sol se transforma em vento solar e como diferentes partículas são transportadas para o espaço.

Uma fronteira gigantesca atravessa o Sistema Solar

Para entender o achado, é preciso conhecer a folha de corrente heliosférica, conhecida pela sigla HCS. Trata-se de uma enorme estrutura magnética que se estende para longe do Sol e separa regiões nas quais o campo magnético da estrela apresenta orientações opostas.

Conforme o Sol gira, essa estrutura assume uma configuração ondulada e espiralada. Por isso, ela pode ser imaginada como uma gigantesca superfície que acompanha a expansão do vento solar pela heliosfera.

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A heliosfera, por sua vez, é a região dominada pelo fluxo de partículas emitidas continuamente pelo Sol. Ela se estende muito além da órbita dos planetas e funciona como uma espécie de ambiente criado pela atividade da nossa estrela.

Além disso, o vento solar desempenha papel importante no clima espacial. Quando partículas e campos magnéticos provenientes do Sol interagem com a Terra, podem surgir fenômenos como auroras e perturbações que afetam satélites e outros sistemas tecnológicos.

Uma mudança química apareceu junto com o campo magnético

Mudança química no vento solar. (Imagem: Fala Ciência)

A grande novidade surgiu quando a Solar Orbiter atravessou a folha de corrente heliosférica a aproximadamente 0,3 unidade astronômica do Sol, uma distância muito menor do que a da Terra em relação à estrela.

Essa proximidade permitiu analisar o vento solar em uma fase relativamente jovem, antes que suas características fossem modificadas ao percorrer grandes distâncias.

Os instrumentos da espaçonave mediram propriedades do campo magnético, do plasma e dos íons presentes na região. Entre os resultados, apareceu uma alteração particularmente interessante na proporção entre íons de ferro e oxigênio.

A concentração relativa desses elementos diminuiu de maneira associada à fronteira onde ocorria a inversão da polaridade magnética.

Em outras palavras, a região não parece ser apenas uma linha imaginária utilizada para representar uma mudança na orientação do campo magnético. Ela também apresenta uma assinatura na composição das partículas.

Esse detalhe é importante porque sugere que os processos responsáveis por organizar e liberar partículas na atmosfera solar podem estar relacionados à própria estrutura magnética observada no espaço.

O que os íons podem revelar sobre a origem do vento solar

Íons são átomos ou moléculas que possuem carga elétrica porque perderam ou ganharam elétrons. No ambiente extremamente energético do Sol, eles formam parte importante do plasma que alimenta o vento solar.

A composição desses íons funciona, portanto, como uma espécie de registro das condições existentes na coroa solar.

Ao identificar mudanças específicas na distribuição de elementos como ferro e oxigênio, os pesquisadores conseguem obter pistas sobre processos que acontecem antes de o material deixar definitivamente a região próxima ao Sol.

Isso ajuda a investigar questões fundamentais, como:

  • De onde exatamente surgem diferentes componentes do vento solar?
  • Como o campo magnético influencia a saída das partículas?
  • Por que determinados íons apresentam comportamentos diferentes?
  • Como o plasma é aquecido e acelerado antes de se espalhar pela heliosfera?

Ainda assim, o resultado não significa que o mecanismo de formação da folha de corrente heliosférica tenha sido definitivamente solucionado. A observação fornece principalmente restrições importantes para os modelos científicos que tentam explicar esse processo.

Uma pista importante para entender o clima espacial

Compreender melhor a origem do vento solar também tem consequências práticas. A atividade solar pode alterar as condições do ambiente espacial próximo à Terra, interferindo em satélites, sistemas de comunicação, navegação e redes elétricas durante eventos mais intensos.

Por isso, descobrir como as partículas são organizadas e aceleradas perto do Sol pode contribuir, no futuro, para modelos mais precisos de previsão do clima espacial.

A Solar Orbiter tem uma vantagem especialmente importante nesse tipo de investigação: ela consegue realizar medições diretamente no ambiente próximo ao Sol, onde as partículas ainda carregam informações sobre os processos que ocorreram na coroa.

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Pesquisa revela novas pistas sobre a origem do vento solar

A pesquisa foi publicada em 31 de agosto de 2026 na revista científica The Astrophysical Journal. O trabalho tem como autor principal Keiichi Ogasawara e é intitulado “Resolving Compositional Features of Solar Wind Source Regions near the Heliospheric Current Sheet at 0.3 au”.

O principal avanço está em mostrar que a folha de corrente heliosférica possui variações mensuráveis na composição do plasma, além da conhecida inversão do campo magnético.

Agora, novas observações serão importantes para descobrir se esse padrão aparece repetidamente em diferentes regiões e condições solares. Se isso for confirmado, a assinatura dos íons poderá se tornar uma ferramenta valiosa para reconstruir a trajetória do vento solar desde sua origem até o espaço interplanetário.

A cada nova passagem da Solar Orbiter, o Sol deixa mais algumas pistas sobre como sua atmosfera transforma plasma extremamente quente em um fluxo de partículas capaz de preencher todo o Sistema Solar.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes