Lua guarda pistas de supernovas antigas em seu solo, revela novo modelo

O solo lunar pode guardar pistas de antigas explosões estelares. (Imagem Ilustrativa: Fala Ciência)

A Lua parece silenciosa e imutável quando observada do céu. Porém, sua superfície guarda uma espécie de arquivo cósmico, formado por partículas que chegaram ao nosso satélite ao longo de milhões de anos. Entre elas podem estar elementos produzidos por supernovas, as explosões que marcam o fim de algumas estrelas.

Agora, um novo estudo indica que o próprio solo lunar pode ajudar os cientistas a reconstruir quando esses eventos aconteceram e como seus resíduos se espalharam pelo Sistema Solar. A chave está em entender um processo conhecido como jardinagem do regolito, causado pelo constante impacto de meteoritos na superfície.

A Lua funciona como um arquivo que não apaga

Na Terra, movimentos geológicos, erosão e atividade biológica acabam misturando e destruindo registros muito antigos. A Lua é diferente. Como não possui placas tectônicas ativas e apresenta uma superfície extremamente seca, materiais depositados sobre ela podem permanecer preservados por períodos muito longos.

Isso inclui isótopos radioativos produzidos em eventos estelares.

Quando uma supernova ocorre relativamente perto do Sistema Solar, partículas contendo elementos específicos podem atravessar o espaço e alcançar a Terra e a Lua. Alguns desses materiais deixam uma assinatura química que pode ser identificada muito tempo depois.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

Um dos exemplos é o ferro 60, isótopo associado a eventos astrofísicos capazes de produzir grandes quantidades de elementos pesados.

Entretanto, existe um problema: a superfície lunar não permanece parada.

Meteoritos embaralham as páginas dessa história

Infográfico mostra como impactos lunares misturam o regolito e suas camadas. (Imagem Ilustrativa: Fala Ciência)

Cada impacto sobre a Lua pode escavar material, enterrá-lo ou deslocá-lo lateralmente. Ao longo de milhões de anos, essa sucessão de colisões transforma o regolito em uma espécie de mistura geológica natural.

Para descobrir onde determinada assinatura de uma supernova deveria estar, portanto, não basta saber quando o material chegou à Lua. É necessário calcular como ele foi redistribuído depois.

Foi exatamente esse desafio que Emily S. Costello, da Universidade do Havaí em Mānoa, e seus colaboradores tentaram resolver.

O estudo, publicado na revista Physical Review Letters em 14 de agosto de 2026, apresentou um modelo matemático que descreve a movimentação vertical do regolito provocada pelos impactos. O trabalho foi capaz de reproduzir perfis observados em amostras coletadas durante as missões Apollo, incluindo a distribuição do ferro 60.

Veja mais:

Novas amostras podem revelar explosões ainda desconhecidas

Depois de validar o modelo, os pesquisadores foram além do ferro 60. A equipe calculou como outros elementos radioativos poderiam estar distribuídos nas diferentes profundidades do solo lunar.

Entre eles estão:

  • plutônio 244;
  • iodo 129;
  • háfnio 182;
  • cúrio 247.

O plutônio 244 é especialmente interessante porque seu padrão em relação ao ferro 60 poderia ajudar a investigar a origem desses elementos e diferenciar possíveis fontes astrofísicas. O modelo indica que futuras amostras de regolito coletadas a cerca de 1 metro de profundidade podem ser particularmente úteis para essa investigação.

Isso ganha importância com o retorno das missões humanas à Lua. Amostras mais profundas poderão funcionar como novas páginas de um registro cósmico extremamente antigo.

No futuro, estudar esses materiais poderá permitir aos cientistas investigar não apenas antigas supernovas, mas também a trajetória do próprio Sistema Solar pela galáxia. Afinal, cada camada do regolito pode carregar uma pequena parte da história de eventos estelares que aconteceram muito antes de a humanidade existir.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes