Uma pesquisa brasileira sobre lesão da medula espinhal acaba de alcançar uma etapa importante: os resultados do primeiro estudo clínico com polilaminina em humanos foram publicados em uma revista científica internacional. Entre os oito participantes avaliados, seis apresentaram melhora neurológica, o equivalente a 75% da amostra.
O resultado chama atenção, mas precisa ser interpretado dentro dos limites do estudo. A pesquisa foi um ensaio piloto, sem grupo controle, desenvolvido principalmente para avaliar segurança e viabilidade. Portanto, os dados ainda não permitem afirmar que a polilaminina foi responsável pelas recuperações observadas.
Uma substância criada para favorecer a regeneração da medula
A polilaminina é uma forma polimerizada da laminina, uma proteína da matriz extracelular envolvida em processos importantes do desenvolvimento e organização dos tecidos.
A proposta do tratamento é utilizar essa molécula como um suporte biológico no local da lesão. Em uma lesão medular traumática, fibras nervosas podem ser interrompidas, dificultando a transmissão dos sinais entre o cérebro e diferentes regiões do corpo.
No estudo, os participantes receberam uma aplicação intramedular de polilaminina, em média 2,3 dias após o trauma. Todos apresentavam lesão neurologicamente completa, classificada como AIS A, a categoria mais grave dentro da escala utilizada para avaliar lesões da medula.
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Entrar no Canal do WhatsAppA expectativa é que o ambiente criado pela substância possa favorecer processos relacionados à regeneração e à reorganização das conexões nervosas.
Seis pacientes avançaram na escala neurológica
Após o tratamento e o acompanhamento clínico, seis dos oito participantes avançaram pelo menos dois níveis na classificação AIS.
Entre eles:
- cinco pacientes chegaram a AIS C;
- um paciente chegou a AIS D;
- dois não apresentaram essa mesma progressão neurológica.
Essa mudança não deve ser interpretada como sinônimo de recuperação completa dos movimentos ou retorno à marcha. A escala AIS considera diferentes componentes neurológicos, incluindo função motora e sensitiva.
Além disso, três participantes apresentaram mudanças favoráveis em avaliações neurofisiológicas relacionadas à transmissão dos sinais pelo sistema nervoso.
O resultado, portanto, indica uma evolução neurológica mensurável, mas não permite concluir que todos os pacientes recuperaram funções motoras de maneira semelhante.
As mortes registradas no estudo precisam ser contextualizadas
Um dos pontos que merece atenção é a ocorrência de três mortes durante o período de acompanhamento. O artigo científico descreve como causas pneumonia, derrame pericárdico com tamponamento cardíaco e sepse.
Os autores não consideraram esses eventos relacionados à aplicação da polilaminina. O protocolo também foi analisado pelas instâncias de ética responsáveis pelo estudo.
Esse aspecto é importante porque pessoas com lesões medulares traumáticas graves podem apresentar complicações sistêmicas importantes, especialmente durante a fase aguda e a internação.
Ainda assim, o fato de não ter sido estabelecida uma relação causal com a substância não significa que a segurança esteja definitivamente comprovada. Essa é justamente uma das questões que precisam ser investigadas em estudos maiores.
Estudo abre caminho para novas pesquisas
O trabalho foi publicado em 4 de agosto de 2026 na revista científica Spinal Cord. O estudo foi intitulado “Intramedullary injection of polymerized laminin in acute traumatic spinal cord injury: a first-in-human pilot study”.
A própria publicação destaca uma limitação essencial: como se trata de um estudo prospectivo, exploratório, de braço único e sem grupo controle, os resultados neurológicos não podem ser usados para determinar a eficácia da polilaminina.
Essa diferença é fundamental. Quando um paciente melhora depois de receber um tratamento experimental, não é possível saber apenas pela observação individual quanto dessa recuperação ocorreu devido à substância e quanto pode estar relacionado à evolução natural da lesão, aos cuidados médicos, à cirurgia e à reabilitação.
Próxima etapa precisa separar efeito do tratamento e recuperação natural
Os resultados obtidos nos oito participantes fornecem dados clínicos iniciais de segurança e viabilidade, além de sinais que justificam uma investigação mais ampla.
Agora, estudos controlados serão importantes para comparar pacientes que recebem o tratamento convencional com aqueles que recebem o mesmo cuidado associado à polilaminina. Só assim será possível estimar com maior precisão qual é o efeito específico da substância sobre a recuperação neurológica.
A pesquisa brasileira, portanto, chega a um momento decisivo. Os 75% de melhora observados são um resultado relevante dentro desse pequeno grupo, mas a ciência precisa de amostras maiores, acompanhamento rigoroso e comparação adequada antes que a polilaminina possa ser considerada um tratamento comprovadamente eficaz para lesões medulares.
