O Brasil não precisa ter um grande deserto para enfrentar um problema semelhante. A desertificação já ameaça áreas extensas do território nacional, alterando a capacidade do solo de armazenar água, sustentar vegetação e manter atividades agrícolas. O impacto vai muito além das regiões rurais: quando a terra perde sua funcionalidade, a produção de alimentos, o abastecimento hídrico e até a economia das cidades podem sentir as consequências.
Atualmente, cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em áreas suscetíveis à desertificação, principalmente no Nordeste, além de partes de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul. O processo está associado à combinação entre condições climáticas secas e ações como desmatamento, manejo inadequado do solo e práticas agrícolas pouco adaptadas ao ambiente.
Solo deixa de funcionar como uma esponja natural
Uma terra saudável consegue reter parte da água da chuva, armazenar carbono e oferecer condições para o desenvolvimento das plantas. Porém, quando a cobertura vegetal é removida e o solo sofre erosão ou uso inadequado, essa capacidade diminui.
O resultado pode formar um ciclo preocupante:
- menos vegetação significa maior exposição do solo;
- a erosão remove nutrientes e matéria orgânica;
- a infiltração da água diminui;
- a produção agrícola se torna mais difícil;
- períodos de seca passam a causar impactos ainda maiores.
Por isso, desertificação não significa simplesmente transformar uma região em um deserto. Trata-se de um processo de degradação da terra em regiões secas, capaz de reduzir progressivamente sua produtividade e sua capacidade de sustentar ecossistemas e comunidades.
A Caatinga guarda uma surpresa importante para o clima
Entre os ambientes mais vulneráveis está a Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro. Embora frequentemente seja associada apenas à seca, sua vegetação possui uma enorme importância ecológica e climática.
Um estudo publicado na revista Science of the Total Environment em 1º de janeiro de 2025, liderado por Luis Miguel da Costa, analisou inventários de gases de efeito estufa e a absorção de carbono pelos ecossistemas brasileiros entre 2015 e 2022.
A pesquisa encontrou um dado especialmente relevante: em 2022, a Caatinga respondeu por quase 50% das remoções de gases de efeito estufa registradas pelo inventário Climate TRACE para o Brasil. Os pesquisadores também observaram uma relação entre aumento da precipitação, atividade fotossintética e maior capacidade de remoção de carbono no bioma.
Isso ajuda a desmontar a ideia de que a Caatinga seria apenas uma região degradada e com pouca importância climática. Preservar sua vegetação significa também proteger uma estrutura natural capaz de retirar carbono da atmosfera.
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Recuperar a terra também significa proteger alimentos e água
Combater a desertificação exige mais do que plantar árvores. O solo precisa recuperar sua estrutura, a água da chuva precisa ser aproveitada e a produção rural precisa respeitar as características de cada região.
Práticas como sistemas agroflorestais, conservação do solo, recuperação da vegetação nativa, captação de água da chuva e manejo adequado das áreas agrícolas podem ajudar a interromper a degradação.
Além disso, proteger comunidades que vivem no semiárido é parte da solução. Agricultores familiares e populações tradicionais acumulam conhecimento sobre sementes adaptadas, manejo da Caatinga e convivência com períodos de estiagem.
O avanço da desertificação, portanto, não é apenas uma questão ambiental. Ele envolve diretamente água, comida, biodiversidade, clima e renda. Quanto mais cedo as áreas degradadas forem recuperadas, maiores serão as possibilidades de manter territórios produtivos e resilientes diante de um clima cada vez mais extremo.
