Resistência à insulina é a causa por trás da SOP em muitas mulheres 

SOP envolve alterações hormonais que afetam o funcionamento dos ovários. (Imagem: Getty Images via Canva)

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) costuma ser associada a menstruação irregular, acne, aumento de pelos e dificuldade para engravidar. No entanto, por trás de vários desses sinais existe uma alteração metabólica que merece muito mais atenção: a resistência à insulina.

Isso acontece porque a SOP não é apenas um problema relacionado aos ovários. Ela envolve uma complexa interação entre metabolismo, hormônios e funcionamento reprodutivo. Em muitas mulheres, a dificuldade do organismo para responder adequadamente à insulina contribui para desencadear uma sequência de alterações que afeta diretamente os ovários.

Insulina começa a interferir nos hormônios

Infográfico explica como a resistência à insulina causa os sintomas da SOP. (Imagem: Fala Ciência)

A insulina é responsável por ajudar a glicose a entrar nas células para ser utilizada como energia. Quando existe resistência à ação desse hormônio, o organismo tende a compensar produzindo mais insulina.

Esse excesso, chamado hiperinsulinemia, pode estimular os ovários a produzirem mais andrógenos, os hormônios que, quando elevados nas mulheres, estão relacionados a manifestações como acne, aumento de pelos e queda de cabelo.

Além disso, níveis elevados de insulina podem diminuir a produção de uma proteína chamada SHBG, responsável por transportar hormônios sexuais no sangue. Com menos SHBG disponível, aumenta a quantidade de andrógenos livres circulando.

O resultado pode ser um ciclo metabólico e hormonal:

resistência à insulina → aumento da insulina → maior atividade androgênica → alterações na ovulação → sintomas da SOP.

Estudo encontrou alteração até em adolescentes com SOP magra

Uma pesquisa publicada em 22 de abril de 2026 no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism analisou adolescentes com a chamada SOP magra, ou seja, sem excesso de peso.

O estudo foi liderado por Rachel C. Whooten e mostrou que adolescentes com SOP apresentavam maior resistência à insulina e alterações no perfil de adipocinas em comparação com participantes sem a síndrome. O achado é especialmente relevante porque demonstra que a resistência à insulina não deve ser associada exclusivamente à obesidade.

Essa distinção é importante. Uma mulher pode ter SOP e não estar acima do peso, mas ainda assim apresentar alterações metabólicas. Portanto, avaliar apenas o peso corporal pode deixar parte do problema escondida.

O metabolismo também conversa com os ovários

A resistência à insulina não explica todos os casos de SOP. A síndrome é heterogênea, o que significa que diferentes mecanismos podem participar do seu desenvolvimento.

Ainda assim, quando a resistência à insulina está presente, ela pode contribuir para:

  • aumento dos andrógenos;
  • alterações na ovulação;
  • irregularidade menstrual;
  • maior risco de alterações da glicemia;
  • aumento da predisposição a diabetes tipo 2 e outros problemas metabólicos.

Por isso, o acompanhamento da mulher com SOP não deve ficar restrito ao ciclo menstrual. Avaliar glicemia, metabolismo, perfil hormonal e fatores de risco cardiovascular, conforme a avaliação clínica individual, também pode ser importante.

Tratar a causa metabólica muda a perspectiva

Entender a participação da insulina ajuda a explicar por que o cuidado com a SOP precisa ser individualizado. Alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado e, quando indicados, medicamentos que melhoram a sensibilidade à insulina podem fazer parte da estratégia terapêutica.

Entretanto, não existe uma única abordagem capaz de tratar todas as mulheres com SOP. O tratamento depende dos sintomas, dos objetivos reprodutivos, do perfil metabólico e das características hormonais de cada paciente.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn