O desejo por um alimento específico pode começar muito antes da primeira mordida. Uma lembrança, um cheiro ou até a expectativa de consumir algo prazeroso é capaz de ativar circuitos cerebrais que influenciam a motivação e o comportamento.
Esse mecanismo é útil quando nos ajuda a buscar comida e outras recompensas importantes. Entretanto, quando essa resposta se torna excessiva, pode contribuir para padrões de consumo difíceis de controlar.
É justamente nesse ponto que os medicamentos conhecidos como agonistas do receptor de GLP-1 chamaram a atenção da neurociência.
Medicamentos como semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, foram desenvolvidos para melhorar o controle da glicose e auxiliar no tratamento da obesidade. Além de aumentarem a saciedade e retardarem o esvaziamento gástrico, porém, pesquisas experimentais sugerem que o sistema GLP-1 também influencia circuitos cerebrais relacionados à recompensa.
Uma região em particular está ganhando destaque: o septo lateral.
O circuito cerebral que conecta memória e recompensa
O septo lateral não costuma aparecer nas explicações populares sobre o sistema de recompensa. Durante décadas, estruturas como a área tegmental ventral e o núcleo accumbens receberam muito mais atenção por sua participação na sinalização dopaminérgica.
O septo lateral, entretanto, ocupa uma posição estratégica.
Ele recebe informações do hipocampo, estrutura envolvida na memória e na representação do contexto. Dessa maneira, o cérebro consegue associar determinadas experiências a locais, situações e recompensas.
Essa integração ajuda a explicar por que um determinado ambiente, cheiro ou lembrança pode despertar uma vontade específica.
O detalhe que tornou o septo lateral especialmente interessante para os pesquisadores é a presença de receptores para GLP-1 nessa região.
Assim, os agonistas de GLP-1 podem influenciar não apenas sinais relacionados à saciedade, mas também mecanismos cerebrais envolvidos na atribuição de valor a determinadas recompensas.
Estudo encontrou ligação direta com o consumo de alimentos
Uma das evidências fundamentais veio de um estudo publicado no periódico American Journal of Physiology-Regulatory, Integrative and Comparative Physiology.
Liderado por Sarah J. Terrill, o trabalho investigou especificamente o papel dos receptores de GLP-1 localizados no septo lateral.
Os pesquisadores observaram que a ativação desses receptores reduziu a ingestão alimentar em ratos, incluindo o consumo de uma dieta rica em gordura. O resultado mostrou que o septo lateral não é apenas uma estrutura relacionada a funções comportamentais gerais, mas também pode participar diretamente da regulação da ingestão de alimentos.
Essa descoberta ganhou uma dimensão ainda mais interessante porque medicamentos que ativam o sistema GLP-1 passaram a produzir efeitos expressivos sobre o peso corporal em humanos.
A conexão com o álcool amplia a descoberta
A relação entre GLP-1 e recompensa não parece estar restrita à alimentação.
Em 1 de julho de 2026, Yu Tian e colaboradores investigaram o papel de um circuito do septo lateral relacionado à recompensa provocada pelo álcool. O estudo foi publicado na revista Neuron e avaliou camundongos.
Os pesquisadores identificaram um circuito inibitório no septo lateral envolvido na resposta de recompensa ao álcool. Além disso, observaram que a liraglutida, um agonista do receptor de GLP-1, reduziu o consumo de álcool nos animais e alterou a atividade relacionada à liberação de dopamina no núcleo accumbens.
O resultado é particularmente relevante porque conecta três elementos: GLP-1, septo lateral e comportamento relacionado à recompensa.
Isso significa que Ozempic trata dependência?
Ainda não.
É importante separar uma descoberta sobre mecanismos cerebrais de uma aplicação clínica comprovada. Os estudos citados foram realizados em modelos animais, portanto seus resultados não permitem concluir que Ozempic ou outros agonistas de GLP-1 sejam tratamentos para dependência de álcool ou outras substâncias.
Além disso, o mecanismo do desejo humano é muito mais complexo do que uma única região cerebral.
O que essas pesquisas oferecem é uma pista importante. O septo lateral parece funcionar como uma ponte entre informações contextuais, recompensa e comportamento, enquanto os receptores de GLP-1 nessa estrutura podem modificar essa comunicação.
Uma nova maneira de entender o efeito dos GLP-1
A popularização dos medicamentos GLP-1 trouxe uma consequência inesperada para a ciência: eles estão permitindo investigar de maneira mais detalhada como o cérebro transforma a expectativa de recompensa em comportamento.
Os estudos de Terrill e Tian apontam para uma possibilidade intrigante. Parte dos efeitos desses medicamentos pode ocorrer por mecanismos cerebrais que vão além da simples sensação de estômago cheio.
Ainda é cedo para chamar o septo lateral de verdadeiro “centro do desejo”. O cérebro não concentra fome, prazer ou dependência em um único ponto.
Mesmo assim, a região tornou-se uma peça importante para entender como memórias, recompensas e motivação se encontram. E quanto mais os pesquisadores descobrem sobre essa conexão, maior fica o interesse em saber se o sistema GLP-1 poderá inspirar novas estratégias contra comportamentos alimentares compulsivos e outros transtornos relacionados à recompensa.
