Um em cada cinco indivíduos pode carregar este risco cardiovascular sem sintomas 

O risco pode existir mesmo sem sintomas ou colesterol elevado. (Imagem: Fala Ciência)

Existe um tipo de colesterol que pode passar despercebido em exames de rotina e, ainda assim, estar associado a um risco maior de doenças cardiovasculares. Trata-se da lipoproteína(a), ou Lp(a), uma partícula semelhante ao LDL, mas que possui uma proteína adicional capaz de influenciar processos relacionados à aterosclerose e à formação de coágulos.

O detalhe mais importante é que seus níveis são fortemente determinados pela genética. Por isso, alimentação equilibrada e exercícios continuam sendo fundamentais para a saúde cardiovascular, mas não costumam reduzir substancialmente a concentração de Lp(a) herdada.

Estima-se que aproximadamente uma em cada cinco pessoas apresente níveis elevados, muitas vezes sem qualquer sintoma.

Um marcador que pode escapar do colesterol convencional

Entenda o papel da Lipoproteína(a) no risco cardiovascular. (Imagem: Fala Ciência)

O LDL costuma ocupar o centro das avaliações relacionadas ao colesterol. Entretanto, uma pessoa pode apresentar LDL dentro de uma faixa considerada adequada e ainda carregar uma concentração elevada de Lp(a).

Essa diferença acontece porque a Lp(a) não é apenas uma variação do LDL. Ela contém uma molécula chamada apolipoproteína(a) ligada à apolipoproteína B, característica que confere propriedades próprias à partícula.

Quando elevada, a Lp(a) está associada ao desenvolvimento de doença cardiovascular aterosclerótica e também à estenose aórtica calcífica.

Além disso, como seus níveis permanecem relativamente estáveis ao longo da vida e são predominantemente hereditários, conhecer essa informação pode ser particularmente relevante para pessoas com histórico familiar de doença cardiovascular precoce.

Mais de 20 mil pessoas ajudaram a revelar o risco

Uma análise apresentada em 24 de abril de 2026, durante as sessões científicas da Society for Cardiovascular Angiography & Interventions, avaliou amostras de plasma de 20.070 participantes com 40 anos ou mais provenientes dos estudos ACCORD, PEACE e SPRINT, financiados pelo NIH. O trabalho foi liderado pelo cardiologista Subhash Banerjee.

Os participantes foram separados conforme a concentração de Lp(a), incluindo um grupo com níveis de 175 nmol/L ou mais. Durante aproximadamente quatro anos de acompanhamento, ocorreram 1.461 eventos cardiovasculares importantes.

Depois dos ajustes estatísticos para características clínicas, lipídios e tratamentos, a Lp(a) nesse patamar esteve associada a:

  • 31% maior risco de eventos cardiovasculares adversos maiores
  • 49% maior risco de morte cardiovascular
  • 64% maior risco de acidente vascular cerebral

A associação não foi significativa para infarto do miocárdio isoladamente. O efeito também foi mais evidente entre participantes que já apresentavam doença cardiovascular.

É importante fazer uma distinção: esses resultados foram apresentados em congresso científico, e não correspondem a um artigo completo publicado em periódico científico. Portanto, os números devem ser interpretados como evidência apresentada em uma análise de congresso, enquanto a publicação formal do trabalho ainda deve ser acompanhada.

Um exame de sangue pode revelar esse risco

A Lp(a) não costuma fazer parte do perfil lipídico convencional. Por isso, uma pessoa pode desconhecer completamente sua concentração mesmo realizando exames de colesterol regularmente.

Como os níveis são fortemente influenciados pela genética, uma avaliação pode ser especialmente útil quando existe:

  • Histórico familiar de doença cardiovascular precoce
  • Doença cardiovascular em idade relativamente jovem
  • Eventos cardiovasculares sem explicação aparente pelos fatores tradicionais
  • Forte preocupação com risco cardiovascular residual

A identificação de Lp(a) elevada não significa que a pessoa terá necessariamente um infarto ou AVC. O risco cardiovascular resulta da combinação de diversos fatores.

No entanto, descobrir uma concentração elevada pode levar o profissional de saúde a dar ainda mais atenção a fatores modificáveis, principalmente LDL, pressão arterial, diabetes, tabagismo, peso corporal e atividade física.

Assim, mesmo quando o colesterol tradicional parece satisfatório, existe uma peça adicional que pode ajudar a completar o quebra-cabeça do risco cardiovascular: a lipoproteína(a).

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn