Muito antes de o ser humano inventar materiais plásticos, as bactérias já produziam seus próprios polímeros. Essas substâncias, chamadas polihidroxialcanoatos ou PHAs, funcionam como reservas internas de carbono e energia para os microrganismos.
Agora, uma descoberta revela que essa forma natural de plástico pode ter uma história muito mais profunda na alimentação dos animais do que se imaginava. Pesquisadores identificaram enzimas capazes de degradar PHAs em diferentes grupos do reino animal, indicando que o carbono armazenado pelos microrganismos pode ser aproveitado diretamente pelos animais.
A descoberta começou com um organismo particularmente incomum: o pequeno verme marinho Olavius algarvensis.
O verme que perdeu boca e intestino
Com aproximadamente dois centímetros, esse verme vive associado a comunidades de bactérias simbióticas e apresenta uma característica extraordinária: não possui boca nem sistema digestivo convencional.
Em vez de buscar alimento da maneira tradicional, o animal mantém bactérias sob sua pele. Essas parceiras microscópicas produzem e armazenam grandes quantidades de PHA, acumulando carbono dentro das próprias células.
Os pesquisadores identificaram no verme uma enzima capaz de quebrar essas moléculas. Além disso, a localização dessa enzima no organismo indica que ela atua justamente em regiões onde as bactérias simbióticas são processadas.
Em termos simples, o verme parece ter desenvolvido uma maneira de acessar a reserva energética acumulada por seus próprios parceiros bacterianos.
De uma espécie para dezenas de animais
O mais surpreendente aconteceu quando a equipe ampliou a investigação. Ao analisar informações genéticas de diferentes animais, os pesquisadores encontraram enzimas relacionadas à degradação de PHA em mais de 66 espécies pertencentes a nove filos animais. Isso significa que a capacidade não está restrita ao pequeno verme marinho que chamou inicialmente a atenção dos cientistas.
Testes laboratoriais também identificaram essa atividade em organismos evolutivamente muito diferentes, incluindo uma esponja, uma minhoca e um colêmbolo.
O estudo foi publicado em 13 de agosto de 2026 na revista científica Nature Ecology & Evolution, com Caroline Zeidler como primeira autora. O trabalho, intitulado Animal degradation of microbial storage polyhydroxyalkanoates, está associado ao DOI 10.1038/s41559-026-03153-8.
Um plástico que já fazia parte da natureza
Os PHAs são produzidos naturalmente por bactérias e arqueias quando esses microrganismos precisam guardar carbono para utilização futura. Eles podem ser encontrados em ambientes como solos, sedimentos e ecossistemas aquáticos.
Isso os diferencia dos plásticos sintéticos convencionais. Os PHAs são considerados biodegradáveis e também podem ser produzidos industrialmente para fabricar materiais destinados a diferentes aplicações. Entre os usos atuais estão:
- Embalagens e produtos de higiene;
- Materiais agrícolas de liberação controlada;
- Curativos e sistemas de administração de medicamentos;
- Implantes e suturas que podem ser degradados pelo organismo.
A nova pesquisa acrescenta uma peça importante a essa história: os animais também podem participar da degradação desses polímeros naturais.
Uma nova rota para o carbono microbiano
A descoberta pode mudar a maneira como os cientistas enxergam o fluxo de matéria entre microrganismos e animais.
Durante muito tempo, os PHAs produzidos pelas bactérias eram considerados principalmente uma reserva utilizada pelos próprios microrganismos. Agora, as evidências indicam que moléculas armazenadas dentro de células bacterianas podem entrar nas cadeias alimentares por meio da ação de enzimas animais.
Isso abre novas questões sobre o ciclo global do carbono. Ainda é necessário determinar quanto desse processo ocorre efetivamente nos ambientes naturais e qual é sua importância ecológica.
O resultado também mostra como organismos pouco estudados podem revelar mecanismos biológicos inesperados. Um pequeno verme marinho, praticamente invisível no ambiente, levou os cientistas a uma descoberta que pode estar presente em animais terrestres e aquáticos espalhados por diferentes ramos da árvore da vida.
