Debaixo de uma floresta aparentemente silenciosa existe uma atividade que pode durar muito mais do que uma vida humana. Redes de fungos escondidas no solo e dentro da madeira crescem, se ramificam, perdem partes e continuam ocupando novos espaços. Algumas podem persistir durante períodos extremamente longos, mas existe um problema surpreendente: os cientistas ainda não sabem exatamente como medir a idade de um fungo.
A dificuldade começa porque o cogumelo que vemos na superfície representa apenas uma pequena parte do organismo. A maior estrutura está frequentemente escondida, formada pelo micélio, uma rede de filamentos microscópicos chamados hifas. É essa estrutura que explora o ambiente, absorve nutrientes e pode estabelecer associações com raízes de plantas.
Por isso, observar apenas o cogumelo é semelhante a tentar determinar a idade de uma árvore olhando somente para uma folha.
Um organismo que não cabe em uma fotografia
Em animais, normalmente é relativamente simples definir um indivíduo. Nos fungos, entretanto, essa tarefa pode ser muito mais complicada.
O micélio pode crescer continuamente e formar novas ramificações. Ao mesmo tempo, partes antigas podem morrer e ser recicladas. Em determinadas situações, uma rede pode ainda se fragmentar em diferentes partes, que continuam apresentando o mesmo material genético.
Surge então uma questão fundamental: essas partes devem ser consideradas organismos diferentes ou fragmentos de um mesmo indivíduo?
Essa característica também dificulta estabelecer o momento exato em que começa o envelhecimento. Uma rede que existe há décadas pode ter substituído grande parte de seus tecidos originais, enquanto continua geneticamente relacionada à estrutura inicial. Assim, idade cronológica e idade biológica podem representar coisas diferentes nesses organismos.
O relógio dos fungos funciona de outro jeito
O problema fica ainda mais interessante porque os fungos apresentam estilos de vida muito diferentes. Algumas espécies, como determinadas leveduras, possuem ciclos relativamente simples. Outras desenvolvem redes extensas e interagem continuamente com árvores, plantas ou matéria orgânica.
Fungos decompositores, por exemplo, podem avançar por madeira em decomposição enquanto procuram novos recursos. Já espécies que vivem associadas às raízes podem ter sua persistência relacionada às condições e à sobrevivência de seus hospedeiros.
Por isso, provavelmente não existe uma única expectativa de vida que represente todo o Reino Fungi. O artigo de opinião publicado em 29 de julho de 2026 na revista Trends in Microbiology, com Kristin Aleklett como autora principal, discute justamente essa dificuldade e propõe novas formas de investigar a longevidade desses organismos.
A tecnologia pode acompanhar o que os olhos não conseguem
Para descobrir quanto tempo uma rede fúngica realmente permanece ativa, os pesquisadores precisam acompanhar processos que podem ocorrer durante anos ou até décadas. Entre as estratégias propostas estão:
- Rastreamento genético, para acompanhar indivíduos e mudanças dentro das redes;
- Experimentos laboratoriais de longa duração, capazes de registrar crescimento e renovação;
- Sistemas conhecidos como fungos em chip, que podem permitir observações controladas de interações e desenvolvimento.
Essas ferramentas podem ajudar a separar crescimento, reprodução, fragmentação e envelhecimento, fenômenos que muitas vezes acontecem simultaneamente.
O segredo pode estar sob nossos pés
Entender a longevidade dos fungos não é apenas uma curiosidade sobre organismos capazes de viver por longos períodos. Esses seres desempenham funções essenciais na decomposição da matéria orgânica, ciclagem de nutrientes, agricultura e relações ecológicas com plantas.
Além disso, conhecer seus ciclos de vida pode ajudar a compreender como populações fúngicas respondem às mudanças ambientais e como preservar espécies fundamentais para os ecossistemas.
Enquanto os cogumelos aparecem e desaparecem em poucos dias, seus micélios podem continuar trabalhando silenciosamente muito depois de a estrutura visível ter sumido. É justamente nesse mundo subterrâneo, onde crescimento e renovação acontecem continuamente, que pode estar uma das histórias de longevidade mais intrigantes da biologia.
