Anticoncepcional oral pode reduzir a vitamina B12? Veja o que os estudos mostram 

O anticoncepcional pode estar associado a níveis menores de vitamina B12. (Imagem: Fala Ciência)

O anticoncepcional oral pode ser utilizado durante anos, e justamente por isso surgem dúvidas sobre seus possíveis efeitos nutricionais. Um dos nutrientes que merece atenção é a vitamina B12, essencial para o funcionamento do sistema nervoso, a formação das células sanguíneas e diversas reações metabólicas.

Mas existe uma diferença importante entre apresentar níveis mais baixos de B12 no exame e ter uma deficiência clinicamente relevante.

A evidência disponível não permite afirmar que toda mulher que usa anticoncepcional desenvolverá deficiência de vitamina B12. Entretanto, alguns estudos encontraram alterações nos níveis sanguíneos dessa vitamina entre as usuárias.

A B12 participa de processos ligados à energia e ao sistema nervoso

Entenda o papel da vitamina B12 e os mitos sobre o cansaço. (Imagem: Fala Ciência)

A vitamina B12, também chamada de cobalamina, participa da formação normal das células vermelhas do sangue e da manutenção do sistema nervoso.

Quando existe deficiência verdadeira, podem aparecer manifestações como cansaço, fraqueza e alterações neurológicas. Porém, esses sintomas são inespecíficos e podem ter muitas outras causas.

Sono inadequado, estresse, alimentação desequilibrada, deficiência de ferro e diversas condições de saúde também podem provocar fadiga ou dificuldade de concentração.

Portanto, sentir cansaço não é suficiente para concluir que a vitamina B12 está baixa.

Estudo acompanhou mulheres durante três anos

Uma das pesquisas mais relevantes sobre o assunto foi publicada em 2012, na revista Contraception, com primeira autoria de Abbey B. Berenson.

O estudo acompanhou 703 mulheres durante três anos e comparou participantes que utilizavam anticoncepcionais orais, acetato de medroxiprogesterona de depósito ou métodos não hormonais.

Entre as usuárias de anticoncepcionais orais, os pesquisadores observaram uma queda maior nas concentrações de vitamina B12 em comparação com as mulheres que utilizavam métodos não hormonais. A redução foi mais acentuada durante os primeiros seis meses de uso.

Entretanto, existe um detalhe fundamental: poucas mulheres apresentaram deficiência de B12. Os autores concluíram que a redução observada nos níveis séricos não parecia ter importância clínica significativa na maioria das participantes.

Isso muda bastante a interpretação do resultado. A pesquisa não demonstra que o anticoncepcional provoque deficiência de B12 em todas as usuárias.

Outra pesquisa encontrou a mesma tendência

Um estudo publicado em 2003, no European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, liderado por Marc W. Sütterlin, comparou 71 mulheres que utilizavam anticoncepcionais orais de baixa dose com 170 mulheres que não utilizavam.

As usuárias apresentaram concentrações menores de vitamina B12. Nove participantes do grupo que utilizava anticoncepcional apresentaram deficiência de cobalamina sem sintomas clínicos, enquanto nenhuma participante do grupo controle apresentou esse resultado. Mesmo assim, os autores não recomendaram a medição rotineira da vitamina B12 ou do folato em todas as usuárias.

Esses resultados sugerem que existe uma relação possível entre o uso de anticoncepcionais e alterações nos níveis de B12, mas não justificam a ideia de que toda mulher que usa a pílula precisa tomar suplementos.

Cansaço e falhas de memória precisam de contexto

Se uma pessoa apresenta fadiga persistente, dificuldade de concentração ou alterações de memória, não é adequado atribuir automaticamente esses sintomas ao anticoncepcional ou à vitamina B12.

A investigação pode considerar alimentação, sono, medicamentos, histórico clínico e, quando houver indicação, exames laboratoriais.

Além disso, a suplementação de B12 sem necessidade não substitui a investigação da causa dos sintomas.

A principal conclusão é simples: o anticoncepcional oral pode estar associado a níveis menores de vitamina B12 em algumas mulheres, mas isso não significa que seu uso cause deficiência em todas elas.

Quando existe suspeita de deficiência, a melhor abordagem é avaliar a situação individualmente em vez de assumir que a causa está na pílula.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn