Plásticos se quebram no mar, mas seus produtos químicos continuam viajando

Microplásticos podem carregar substâncias químicas perigosas pelos oceanos e ampliar a exposição dos ecossistemas marinhos. (Imagem: Fala Ciência)

Um fragmento plástico que parece insignificante pode carregar muito mais do que o próprio polímero. No ambiente marinho, microplásticos funcionam como pequenas plataformas químicas, capazes de liberar substâncias presentes em sua composição ou incorporar compostos encontrados na água e nos sedimentos. Com o tempo, essas partículas podem percorrer diferentes regiões e ampliar a distribuição de contaminantes.

Essa dinâmica chama atenção porque os plásticos não são formados apenas por polímeros. Durante a fabricação, diversos aditivos químicos são incorporados para aumentar a resistência, a flexibilidade, a estabilidade ou a durabilidade dos materiais. Entre eles estão plastificantes, antioxidantes, estabilizadores contra radiação ultravioleta e retardantes de chama.

Quando o plástico vira um transportador

A ação do sol, das ondas e do desgaste mecânico fragmenta objetos maiores, como sacolas, redes, cordas e embalagens. O resultado são partículas cada vez menores, muitas delas com menos de 5 milímetros, classificadas como microplásticos.

Essa transformação altera uma característica importante: a relação entre área superficial e massa. Quanto menores são os fragmentos, maior pode ser a superfície disponível para interações com o ambiente.

Por isso, os microplásticos podem apresentar comportamentos diferentes:

  • liberar substâncias químicas presentes no interior do plástico;
  • adsorver contaminantes encontrados na água e em partículas suspensas;
  • transportar compostos persistentes durante sua movimentação pelo ambiente marinho.

Um estudo liderado por Go Suzuki, publicado em 2026 na revista científica Environmental Science & Technology, investigou justamente essa dinâmica em microplásticos e resíduos plásticos coletados em diferentes ambientes do Japão.

Três substâncias chamaram atenção

A equipe identificou uma grande variedade de compostos associados aos materiais plásticos. Entre os grupos analisados com maior atenção estavam substâncias relacionadas ao Irgafos 168, o DEHP e o HBCD.

O Irgafos 168 é utilizado como antioxidante em determinados plásticos. Os padrões encontrados indicaram que seus compostos relacionados podem sofrer lixiviação e transformação dentro da própria matriz plástica, processo influenciado pelo tipo de polímero e pelo tamanho das partículas.

Já o DEHP, um plastificante associado principalmente a plásticos flexíveis, apresentou um comportamento ainda mais interessante. Ele foi encontrado tanto em microplásticos quanto em resíduos maiores, com algumas amostras apresentando concentrações superiores a 1.000 microgramas por grama.

Além dos compostos originalmente presentes no plástico, os resultados indicam que o DEHP pode ser incorporado posteriormente pelas partículas a partir de água, matéria orgânica e partículas suspensas.

Um contaminante que pode viajar por longas distâncias

O HBCD, utilizado como retardante de chama em materiais como o poliestireno expandido, merece atenção especial por suas características ambientais. A substância é persistente e bioacumulativa, além de possuir capacidade de transporte ambiental de longa distância.

Nos microplásticos analisados, foram encontradas concentrações entre 110 e 590 microgramas por grama em diferentes áreas costeiras e marinhas.

Isso significa que um fragmento plástico contaminado não precisa permanecer próximo ao local onde foi descartado. Dependendo das condições ambientais, ele pode ser transportado pelas correntes e permanecer como uma fonte secundária de exposição química.

O desafio vai além de recolher o plástico

Os resultados mostram que combater a poluição marinha exige olhar para duas questões ao mesmo tempo: o material plástico e os produtos químicos associados a ele.

Ainda é necessário descobrir quanto dessas substâncias pode ser absorvido por organismos marinhos e qual é a dimensão dos possíveis efeitos ecológicos. Também será importante rastrear as principais fontes de plástico contaminado e compreender como esses materiais chegam aos rios, praias, oceanos e sedimentos.

Dessa forma, reduzir o problema depende não apenas da retirada dos resíduos já existentes, mas também de prevenir vazamentos, melhorar a gestão dos materiais e controlar substâncias químicas preocupantes desde a origem.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes