Por que cheiros fortes, luzes brilhantes ou pular refeições engatilham a enxaqueca? 

Luz intensa está entre os estímulos associados à enxaqueca. (Imagem: Fala Ciência)

A enxaqueca não aparece simplesmente porque algo “irritou” o cérebro. O processo envolve uma rede neurológica extremamente sensível, capaz de responder de maneira exagerada a estímulos que seriam toleráveis para outras pessoas.

É por isso que uma luz muito intensa, o cheiro de perfume, fumaça ou produtos de limpeza e até passar muitas horas sem comer entram na lista de situações associadas às crises. Porém, existe um detalhe importante: um gatilho não necessariamente inicia sozinho uma enxaqueca. Em algumas pessoas, ele pode funcionar como o último estímulo quando o cérebro já está em um estado de maior vulnerabilidade.

O cérebro com enxaqueca trabalha com um limiar diferente

Durante uma crise, sistemas envolvidos na percepção da dor e no processamento de estímulos sensoriais ficam mais reativos. Isso ajuda a explicar sintomas como fotofobia, que é a sensibilidade à luz, e osmofobia, a intolerância ou aversão a determinados cheiros.

Assim, uma iluminação que normalmente seria apenas desconfortável pode se tornar muito desagradável. Da mesma forma, um odor intenso pode provocar náusea, desconforto e, em algumas pessoas, participar do desencadeamento da crise.

Além disso, existe uma particularidade importante: nem sempre aquilo que parece ser um gatilho é realmente o primeiro evento da crise. Alguns sintomas da fase inicial da enxaqueca podem surgir antes da dor e aumentar a sensibilidade a luzes, cheiros e outros estímulos.

Cheiros fortes encontram um sistema olfativo mais sensível

Perfumes, fumaça de cigarro, produtos de limpeza e outros odores intensos estão entre os estímulos frequentemente associados à enxaqueca.

O olfato possui conexões importantes com regiões cerebrais envolvidas no processamento emocional e sensorial. Quando a excitabilidade dessas redes aumenta, um cheiro intenso pode se tornar muito mais difícil de tolerar.

Isso ajuda a entender por que duas pessoas expostas ao mesmo perfume podem apresentar respostas completamente diferentes. Para alguém sem enxaqueca, o odor pode ser apenas forte. Para uma pessoa suscetível, ele pode coincidir com uma fase de maior sensibilidade cerebral.

A luz intensa também entra nessa equação

A fotofobia é um dos sintomas mais característicos da enxaqueca e não depende necessariamente de uma luz extremamente intensa. Sol forte, reflexos, telas muito brilhantes e determinados ambientes iluminados podem aumentar o desconforto durante uma crise.

Pesquisas experimentais mostram que características específicas da luz influenciam a intensidade da dor e do desconforto visual em pessoas com enxaqueca. Portanto, não é apenas a quantidade de luz que importa. O espectro da iluminação também parece interferir na resposta do sistema visual.

Pular refeições mexe com o equilíbrio do organismo

Passar muitas horas sem comer é outro fator frequentemente relatado por pessoas com enxaqueca. O jejum altera a disponibilidade de energia e costuma acontecer junto de outras mudanças, como desidratação, alteração da rotina e sono irregular.

Um estudo de 2026 investigou justamente a relação entre jejum, estresse e início da dor.

Publicado na revista Headache em 23 de abril de 2026, o trabalho foi liderado por Timothy T. Houle e utilizou um desenho experimental cruzado para avaliar separadamente os efeitos do estresse e do jejum em pessoas com enxaqueca episódica.

Os pesquisadores observaram que jejum e estresse tiveram associações modestas com o risco de início da dor, enquanto a combinação dos dois apresentou a maior incidência acumulada de ataques. Os próprios autores classificaram a possibilidade de interação entre os fatores como evidência preliminar, devido à amplitude dos intervalos de incerteza.

Esse resultado ajuda a compreender por que uma pessoa pode perceber que “ficar sem comer” desencadeia uma crise, enquanto outra não apresenta a mesma resposta. O contexto fisiológico individual importa.

Nem todo gatilho funciona do mesmo jeito

Gatilhos somados como estresse e luz geram enxaqueca. (Imagem: Fala Ciência)

A enxaqueca é altamente individual. Por isso, tentar eliminar indiscriminadamente dezenas de alimentos, cheiros, atividades ou ambientes nem sempre é uma estratégia útil.

Entre os fatores frequentemente associados às crises estão:

  • alterações no sono
  • estresse
  • jejum ou refeições atrasadas
  • desidratação
  • luz intensa
  • odores fortes
  • alterações hormonais
  • mudanças climáticas

Além disso, diferentes fatores podem se somar. Uma noite mal dormida, por exemplo, seguida de muitas horas sem comer e exposição a uma luz intensa talvez seja mais relevante para determinada pessoa do que qualquer um desses elementos isoladamente.

O verdadeiro gatilho pode estar algumas horas antes

Um dos aspectos mais interessantes da enxaqueca é que a crise começa antes de a dor aparecer. Alterações neurológicas podem surgir durante a fase premonitória, quando a pessoa ainda não está necessariamente com dor.

Nesse período, podem aparecer cansaço, dificuldade de concentração, mudanças no humor, bocejos, alterações no apetite e maior sensibilidade a estímulos.

Por isso, alguém pode acreditar que “o perfume causou a enxaqueca” quando, na realidade, a maior sensibilidade ao cheiro já fazia parte do início da crise.

Essa diferença muda bastante a interpretação dos chamados gatilhos. Em vez de procurar um único culpado, é mais útil observar padrões e o conjunto de circunstâncias que antecedem os episódios.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn