Tomar chá de camomila depois de comer: o benefício para o estômago que vai muito além do relaxamento 

A camomila pode fazer parte do ritual após as refeições. (Imagem: Fala Ciência)

Uma xícara de chá de camomila depois de comer costuma ser associada ao relaxamento e ao sono. Porém, a planta também desperta interesse por seus possíveis efeitos sobre o sistema digestivo. O motivo está nos compostos bioativos presentes nas flores, incluindo flavonoides e outros componentes vegetais.

Isso não significa que a camomila seja um tratamento para doenças do estômago. Ainda assim, seu consumo tradicional como bebida pode estar relacionado a uma sensação de conforto após as refeições, especialmente quando o desconforto é leve e ocasional.

Por que a camomila chama atenção para a digestão?

Camomila e digestão: entenda o efeito real. (Imagem: Fala Ciência)

A camomila contém substâncias com propriedades estudadas experimentalmente por sua possível ação antioxidante, anti-inflamatória e antiespasmódica. Essas características ajudam a explicar por que a planta é tradicionalmente utilizada para desconfortos digestivos.

Depois de uma refeição, sintomas como sensação de estufamento, desconforto abdominal ou digestão difícil podem surgir por diferentes motivos. Nesse contexto, uma bebida quente e sem cafeína também pode contribuir para uma rotina alimentar mais tranquila.

Entretanto, é importante separar efeito potencial de tratamento comprovado. A quantidade de compostos bioativos presente em uma infusão doméstica pode ser muito diferente daquela utilizada em estudos com extratos concentrados.

Revisão reuniu evidências sobre chás e o sistema digestivo

Uma revisão publicada na revista Critical Reviews in Food Science and Nutrition em 19 de junho de 2026, tendo Rongbosen Yue como primeiro autor, analisou a relação entre o consumo de chás e a saúde do sistema digestivo.

O trabalho avaliou mecanismos relacionados à digestão, metabolismo dos compostos presentes nos chás e interação com a microbiota intestinal. A revisão também considera diferentes tipos de bebidas e plantas utilizadas como chá, mostrando que seus efeitos digestivos dependem dos compostos presentes e da forma como são consumidos.

É importante fazer uma ressalva: essa publicação é uma revisão sobre chás e saúde digestiva em geral, e não um ensaio clínico que prove que uma xícara de camomila após cada refeição melhora a digestão. Portanto, seus resultados ajudam a contextualizar o potencial dos compostos vegetais, mas não permitem prometer um efeito específico para todas as pessoas.

O benefício pode estar além do estômago

A camomila também é conhecida pelo potencial de favorecer o relaxamento. Esse aspecto é interessante porque o funcionamento do aparelho digestivo está ligado ao sistema nervoso, e fatores como estresse podem influenciar a percepção de desconfortos gastrointestinais.

Assim, uma xícara de camomila após uma refeição pode funcionar como parte de um ritual de desaceleração. Porém, isso é diferente de afirmar que a bebida acelera necessariamente a digestão ou trata gastrite, refluxo ou outras doenças.

Para aproveitar a bebida de maneira simples, vale preferir uma preparação sem excesso de açúcar e observar a própria tolerância.

Quando o chá deixa de ser suficiente?

Um desconforto ocasional é diferente de dor abdominal persistente, vômitos frequentes, dificuldade para engolir, perda de peso inexplicada, sangue nas fezes ou sintomas recorrentes. Nesses casos, o chá não deve substituir uma avaliação profissional.

Além disso, pessoas com alergia a plantas da família Asteraceae ou que utilizam medicamentos regularmente devem conversar com um profissional de saúde antes de consumir preparações concentradas de camomila com frequência.

No fim, o principal benefício de uma xícara depois da refeição pode estar justamente na combinação entre uma bebida sem cafeína, o ritual de relaxamento e os compostos bioativos da planta. A ciência aponta possibilidades interessantes, mas ainda é preciso evitar transformar a camomila em uma solução universal para problemas digestivos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn