Acordar com o dedão do pé queimando e sem conseguir encostar no lençol: a crise silenciosa do ácido úrico 

Dor intensa no dedão pode indicar uma crise de gota. (Imagem: Fala Ciência)

Imagine despertar durante a madrugada com o dedão do pé extremamente dolorido, quente e sensível, a ponto de até o contato do lençol incomodar. Para muitas pessoas, esse episódio surge de maneira inesperada e pode parecer apenas uma inflamação passageira. No entanto, esse padrão é bastante característico de uma crise aguda de gota, condição associada ao acúmulo de cristais de urato nas articulações.

O problema está relacionado ao ácido úrico, substância produzida naturalmente pelo organismo. Quando sua concentração permanece elevada, pode ocorrer a formação de cristais de urato monossódico. Em determinadas circunstâncias, esses cristais desencadeiam uma resposta inflamatória intensa.

Por que o dedão costuma ser o primeiro a reclamar?

A articulação localizada na base do dedão, chamada primeira articulação metatarsofalângica, é um dos locais mais característicos das crises de gota.

A inflamação pode provocar uma combinação bastante marcante de sintomas:

  • Dor intensa e repentina
  • Calor na região
  • Vermelhidão
  • Inchaço
  • Sensibilidade exagerada ao toque

Por isso, uma pessoa pode acordar sentindo que o pé está queimando e perceber que até um contato leve provoca desconforto.

A concentração de urato não é, porém, o único fator envolvido. Temperatura mais baixa nas extremidades, características da articulação e condições locais podem favorecer a precipitação dos cristais.

A inflamação transforma uma pequena articulação em uma grande dor

Cristais de urato inflamam a articulação. (Imagem: Fala Ciência)

Quando os cristais de urato se acumulam dentro ou ao redor da articulação, o sistema imunológico reconhece essas estruturas como um estímulo inflamatório. A partir daí, diversas células e moléculas envolvidas na imunidade são ativadas.

O resultado pode ser uma inflamação muito intensa em uma área relativamente pequena.

É justamente essa resposta que ajuda a explicar por que a gota pode provocar uma dor desproporcional ao tamanho da articulação afetada. Além disso, a crise costuma aparecer rapidamente e pode atingir seu pico em pouco tempo.

Pesquisa relacionou ácido úrico e gota a outras condições

Um estudo publicado na revista científica npj Aging em 25 de maio de 2026, liderado por Chuanghai Wu, analisou dados de mais de 400 mil participantes do UK Biobank para investigar a relação entre níveis de ácido úrico, gota e múltiplas doenças crônicas.

Os pesquisadores observaram que níveis mais elevados de ácido úrico e a presença de gota estavam associados a uma maior probabilidade de multimorbidade, especialmente envolvendo condições cardiometabólicas. A análise também encontrou associações entre ácido úrico, gota e diferentes transições no desenvolvimento dessas condições.

Isso não significa que o ácido úrico elevado seja, sozinho, responsável por todas essas doenças. O estudo avaliou associações, e não prova que uma condição necessariamente cause a outra. Ainda assim, os resultados mostram por que a hiperuricemia e a gota merecem acompanhamento adequado.

Ter ácido úrico alto significa necessariamente ter gota?

Não. Essa distinção é importante.

Uma pessoa pode apresentar hiperuricemia, ou seja, níveis elevados de ácido úrico no sangue, sem desenvolver uma crise de gota. Por outro lado, durante uma crise, a dosagem sanguínea do ácido úrico pode nem sempre estar elevada.

Por isso, um exame isolado não deve ser interpretado sozinho para confirmar ou descartar a doença. O médico considera os sintomas, o histórico clínico, o exame físico e, quando necessário, exames complementares.

Quando a dor no dedão merece investigação?

Uma crise de dor súbita no dedão, principalmente quando acompanhada de inchaço, vermelhidão, calor e grande sensibilidade, merece avaliação profissional, especialmente se for a primeira ocorrência.

Isso é importante porque outras condições também podem causar dor e inflamação nas articulações. Portanto, não é adequado presumir que todo dedão dolorido seja consequência do ácido úrico.

Além disso, crises repetidas podem indicar que existe depósito persistente de cristais de urato e que a doença precisa de acompanhamento para evitar novas manifestações e possíveis danos articulares.

O ácido úrico pode ser controlado?

Sim. Quando existe diagnóstico de gota ou hiperuricemia que exige tratamento, o acompanhamento médico pode incluir estratégias para reduzir e manter o ácido úrico em níveis adequados.

O tratamento depende da situação de cada pessoa. Em alguns casos, são utilizados medicamentos específicos para diminuir a concentração de urato ou controlar as crises inflamatórias.

Por isso, tentar tratar uma crise por conta própria ou iniciar medicamentos sem avaliação profissional não é uma boa estratégia.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn