Fenômeno raro da atmosfera revelou sua força e provocou um tornado no Brasil

Supercélula atmosférica provocou tornado e ventos intensos no Rio Grande do Sul. (Imagem: Fala Ciência)

Quando um tornado se forma no Brasil, ele costuma chamar atenção pela sua raridade. No entanto, antes do funil de vento tocar o solo, existe um sistema atmosférico extremamente organizado que frequentemente está por trás desses eventos: a supercélula. Foi justamente esse tipo especial de tempestade que esteve associado ao tornado registrado no Rio Grande do Sul no fim de julho de 2026. Embora incomum no país, esse fenômeno possui características que o tornam muito mais intenso e duradouro do que as tempestades convencionais, aumentando significativamente o potencial para ventos destrutivos, granizo e chuvas severas.

O que diferencia uma supercélula das demais tempestades?

Uma supercélula é uma tempestade altamente organizada que possui uma corrente ascendente de ar em rotação conhecida como mesociclone. Essa estrutura permite que a tempestade mantenha sua intensidade por várias horas, diferentemente das células convectivas comuns, que normalmente apresentam ciclo de vida mais curto.

Graças a essa rotação persistente, a supercélula consegue manter um fluxo constante de ar quente e úmido para seu interior, alimentando continuamente a tempestade. Como consequência, ela pode produzir fenômenos meteorológicos extremos, como:

  • Tornados.
  • Granizo de grande dimensão.
  • Rajadas de vento muito intensas.
  • Chuvas torrenciais.

Além disso, essas tempestades podem percorrer centenas de quilômetros antes de perder força.

Como esse fenômeno consegue se formar?

A formação de uma supercélula depende da combinação de diversos fatores atmosféricos ocorrendo simultaneamente.

Entre os principais ingredientes estão:

  • Alta disponibilidade de umidade na atmosfera.
  • Ar quente e instável próximo à superfície.
  • Um mecanismo capaz de elevar rapidamente o ar, como a passagem de uma frente fria.
  • Cisalhamento do vento, condição em que a velocidade ou a direção do vento varia conforme a altitude.

Esse último fator desempenha um papel essencial. Ele cria uma rotação horizontal no ar que, ao ser inclinada pelas correntes ascendentes da tempestade, transforma-se em uma rotação vertical, dando origem ao mesociclone.

Segundo informações apresentadas por Celina Rodrigues, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 2026, esse tipo de estrutura explica por que as supercélulas conseguem permanecer organizadas durante várias horas e produzir fenômenos meteorológicos de alta intensidade.

Por que elas são raras no Brasil?

Embora o Brasil registre tempestades severas com frequência, supercélulas são relativamente incomuns. As condições atmosféricas necessárias para sua formação ocorrem principalmente nas regiões Sul e Sudeste, onde massas de ar frio frequentemente interagem com ar quente e úmido vindo do interior do continente.

Mesmo nessas regiões, a combinação ideal entre instabilidade, umidade e cisalhamento do vento acontece apenas em situações específicas.

Por esse motivo, a maioria das tempestades brasileiras não desenvolve a estrutura rotacional típica das supercélulas.

Mudanças climáticas podem influenciar esses eventos?

O aumento da temperatura média do planeta favorece uma atmosfera com maior quantidade de vapor d’água, ingrediente fundamental para tempestades intensas.

De acordo com informações apresentadas por Tércio Ambrizzi, da Universidade de São Paulo (USP) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC), em 2026, esse cenário pode contribuir para eventos de chuva mais extremos. Entretanto, ainda não existem evidências científicas suficientes para afirmar que as supercélulas estejam se tornando mais frequentes devido ao aquecimento global.

Essa distinção é importante porque eventos extremos dependem de diversos fatores atmosféricos atuando simultaneamente, e não apenas do aumento da temperatura.

O episódio registrado no Rio Grande do Sul demonstra como fenômenos relativamente raros podem produzir impactos significativos quando encontram condições favoráveis. Compreender o funcionamento das supercélulas permite melhorar os sistemas de previsão meteorológica, emitir alertas com maior antecedência e reduzir riscos para a população. Embora ainda sejam pouco comuns no Brasil, essas tempestades representam alguns dos eventos atmosféricos mais intensos do planeta e continuam sendo objeto de importantes pesquisas na área da meteorologia.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes