Mistério do voo em “V” é desvendado e explica como pássaros gastam menos energia

Novo estudo revela como aves economizam energia ao voar em formação de V. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Observar um grupo de aves cruzando o céu em uma perfeita formação de “V” é uma cena fascinante. Durante décadas, cientistas sabiam que essa estratégia ajudava espécies migratórias a economizar energia, mas os mecanismos exatos por trás desse fenômeno ainda despertavam muitas dúvidas. Agora, uma nova pesquisa apresenta uma explicação detalhada sobre como essa vantagem acontece durante cada batida de asas.

O estudo mostra que as aves posicionadas atrás e ligeiramente ao lado da líder conseguem modificar a forma como movimentam suas asas, reduzindo significativamente o esforço necessário para permanecer no ar. Além de ampliar o conhecimento sobre a biomecânica do voo, a descoberta também pode contribuir para o desenvolvimento de enxames de drones mais eficientes.

Como o ar ajuda as aves a gastar menos energia

Quando uma ave bate as asas, ela cria pequenos vórtices de ar nas extremidades das asas. Esses redemoinhos produzem regiões onde o fluxo de ar sobe e outras onde ele desce.

As aves que ocupam a posição ideal na formação conseguem aproveitar essa corrente ascendente, reduzindo parte do trabalho normalmente necessário para gerar impulso durante o voo. Em vez de produzir toda a força sozinhas, elas utilizam a energia já presente no ar, tornando o deslocamento muito mais econômico.

Essa interação entre as aves transforma o voo coletivo em um exemplo impressionante de cooperação natural e de aproveitamento inteligente das leis da física.

Um modelo que revelou o movimento ideal das asas

Para entender esse processo, pesquisadores desenvolveram um modelo aerodinâmico baseado no voo do íbis calvo do norte. A simulação reproduziu, quadro a quadro, como o rastro de ar produzido por uma ave influencia aquela que voa logo atrás.

Os resultados indicaram que as aves nessa posição apresentam uma redução de aproximadamente 11% na potência mecânica necessária para voar. O aspecto mais interessante foi observar que elas diminuem a amplitude das batidas das asas para cerca de 70% daquela utilizada durante um voo solitário.

Na prática, isso significa que o movimento vertical das asas se torna menor, exigindo menos esforço muscular e, consequentemente, reduzindo o gasto energético ao longo de longas migrações.

Muito além da sustentação

A pesquisa também ajuda a esclarecer uma dúvida antiga da biomecânica. Em vez de simplesmente aumentar a sustentação, a esteira de ar produzida pela ave líder reduz principalmente a necessidade de gerar propulsão.

Esse detalhe muda a forma como os cientistas compreendem o voo coletivo. O benefício não está apenas em “segurar” melhor a ave no ar, mas em permitir que ela produza menos força para continuar avançando.

Entre os principais efeitos observados estão:

  • Menor esforço muscular durante o voo;
  • Redução da amplitude das batidas das asas;
  • Maior eficiência energética em longas distâncias;
  • Melhor aproveitamento do fluxo de ar criado pela ave líder.

Descoberta pode inspirar tecnologias do futuro

Embora o estudo tenha como foco as aves, suas aplicações vão muito além da biologia. Os princípios identificados podem orientar o desenvolvimento de frotas de drones autônomos, permitindo que voem em formação para reduzir o consumo de energia em atividades como agricultura de precisão, monitoramento ambiental e combate a incêndios.

Além disso, o modelo poderá servir de base para pesquisas que investiguem não apenas a aerodinâmica, mas também o comportamento coletivo das aves durante grandes migrações.

Os resultados foram publicados por Olivia Pomerenk na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), em 2026, oferecendo uma das explicações mais detalhadas já produzidas sobre os benefícios do voo em formação de “V” para as aves.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes