A “Síndrome da Boca Ardente”: o que a deficiência do complexo B e alterações hormonais fazem na mucosa 

Síndrome da boca ardente causa queimação persistente. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Uma sensação de queimação na língua, nos lábios ou em toda a boca, sem feridas aparentes, pode ser mais do que um desconforto passageiro. Conhecida como Síndrome da Boca Ardente (SBA), essa condição afeta principalmente mulheres na meia-idade e costuma desafiar o diagnóstico, justamente porque a mucosa muitas vezes parece completamente normal durante o exame clínico.

Embora sua origem possa envolver diversos fatores, estudos mostram que deficiência de vitaminas do complexo B, alterações hormonais, boca seca e mudanças na função dos nervos estão entre as causas mais frequentemente associadas ao problema. Entender esses mecanismos é essencial para encontrar o tratamento mais adequado.

Boca queima sem apresentar lesões visíveis

Na Síndrome da Boca Ardente, o principal sintoma é uma sensação contínua de ardor, que pode aumentar ao longo do dia.

Além da queimação, também podem surgir:

  • Sensação de boca seca, mesmo com produção normal de saliva.
  • Alteração no paladar, com gosto metálico ou amargo.
  • Formigamento na língua.
  • Sensibilidade aumentada a alimentos quentes, ácidos ou condimentados.

Como não existem lesões aparentes em muitos casos, o diagnóstico depende da avaliação clínica e da exclusão de outras doenças.

Complexo B e hormônios participam da saúde da mucosa oral

Vitaminas B e hormônios influenciam a saúde oral. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

As vitaminas B1, B6, B9 e principalmente B12 desempenham papel importante na renovação das células da mucosa e no funcionamento dos nervos responsáveis pela sensibilidade da boca.

Quando há deficiência dessas vitaminas, podem ocorrer alterações na integridade da mucosa e na transmissão dos impulsos nervosos, favorecendo sintomas como ardência, dormência e desconforto persistente.

Outro fator importante são as alterações hormonais, especialmente durante a perimenopausa e a menopausa. A redução dos níveis de estrogênio pode modificar a sensibilidade das terminações nervosas e favorecer a diminuição da lubrificação da cavidade oral, tornando a mucosa mais sensível a estímulos que normalmente não causariam dor.

Nova revisão amplia o entendimento sobre os fatores envolvidos

Uma revisão publicada em 3 de junho de 2026 na revista científica Current Oral Health Reports, liderada por Lukas Mendes de Abreu, reuniu as evidências mais recentes sobre os mecanismos envolvidos na Síndrome da Boca Ardente.

Os autores descrevem que a condição resulta da interação entre alterações neurológicas, imunológicas e endócrinas, destacando que deficiências nutricionais, alterações hormonais e doenças sistêmicas podem contribuir para o desenvolvimento da forma secundária da síndrome. A revisão também aponta que identificar e tratar a causa subjacente pode aliviar significativamente os sintomas em muitos pacientes.

Investigar a causa é o caminho para aliviar os sintomas

Como a Síndrome da Boca Ardente pode ter diferentes origens, a investigação costuma incluir exames para identificar fatores potencialmente tratáveis.

Entre os principais estão:

  • Dosagem de vitamina B12, ácido fólico e ferro.
  • Avaliação de glicemia.
  • Investigação de alterações hormonais, quando indicada.
  • Exames para descartar infecções, doenças autoimunes e outras alterações da mucosa oral.

Cada caso exige uma abordagem individualizada, pois tratar apenas o sintoma sem identificar sua origem pode limitar os resultados.

Um sintoma discreto que merece atenção

Sentir a boca ardendo por alguns minutos após consumir alimentos muito quentes é esperado. Porém, quando a sensação persiste por dias ou semanas, sem uma causa evidente, ela merece investigação.

A Síndrome da Boca Ardente pode estar relacionada à deficiência do complexo B, alterações hormonais e outros problemas que afetam a saúde da mucosa e dos nervos. Um diagnóstico precoce aumenta as chances de controlar o desconforto e recuperar a qualidade de vida.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn