Quem usa omeprazol por meses pode estar ignorando um risco importante, diz pesquisa 

Uso contínuo de omeprazol exige atenção médica. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

O omeprazol é um dos medicamentos mais utilizados para tratar azia, refluxo e gastrite. Como pode ser encontrado facilmente e costuma aliviar os sintomas rapidamente, muitas pessoas passam a utilizá-lo por semanas, meses ou até anos sem orientação médica. O problema é que o desaparecimento da queimação nem sempre significa que a causa foi resolvida.

Embora o medicamento seja considerado seguro quando usado na indicação correta, o uso prolongado e sem necessidade pode aumentar o risco de diversos efeitos indesejados. Além disso, ele pode mascarar doenças que precisam de investigação e dificultar a absorção de nutrientes essenciais para o organismo. Por isso, especialistas alertam que o omeprazol não deve ser encarado como uma solução permanente para qualquer desconforto digestivo.

Alívio dos sintomas esconde um problema maior

Ácido gástrico ajuda a absorver nutrientes essenciais. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

O omeprazol integra a classe farmacológica dos inibidores da bomba de prótons (IBPs). Sua função é reduzir a produção de ácido no estômago, permitindo que lesões cicatrizem e diminuindo o desconforto causado pelo excesso de acidez.

Entretanto, o ácido gástrico também desempenha funções importantes, como:

  • Facilitar a absorção de vitamina B12, ferro, cálcio e magnésio.
  • Ajudar na digestão das proteínas.
  • Atuar como uma barreira natural contra microrganismos ingeridos com os alimentos.

Quando essa produção permanece reduzida por muito tempo sem necessidade clínica, o organismo pode sofrer consequências que passam despercebidas no dia a dia.

Evidências científicas chamam atenção para o uso sem indicação contínua

Uma análise publicada no BMJ, em 21 de janeiro de 2026, pelos pesquisadores liderados por Wade Thompson, discutiu as evidências mais recentes sobre os possíveis efeitos adversos dos inibidores da bomba de prótons utilizados por longos períodos. O artigo destaca que muitos estudos antigos apresentavam limitações metodológicas, mas também ressalta que o uso prolongado sem indicação bem estabelecida continua sendo uma preocupação importante na prática clínica.

Segundo a publicação, o uso contínuo pode estar associado a um maior risco de situações como:

  • Deficiência de vitamina B12 e magnésio.
  • Redução da absorção de ferro e cálcio.
  • Maior suscetibilidade a algumas infecções intestinais.
  • Possíveis alterações na função renal em determinados pacientes.

Os autores também destacam que esses medicamentos continuam sendo extremamente importantes quando existe uma indicação clara. O problema está principalmente no uso por conta própria, por períodos prolongados e sem reavaliação da necessidade do tratamento.

O perigo de interromper o medicamento sem orientação

O efeito rebote pode enganar quem usa omeprazol. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Outro detalhe pouco conhecido é que suspender o omeprazol de forma abrupta pode provocar o chamado efeito rebote, quando o estômago passa a produzir ácido em excesso temporariamente. Isso faz muitas pessoas acreditarem que ainda precisam do remédio, quando, na verdade, estão enfrentando uma reação esperada após a interrupção.

Por esse motivo, qualquer decisão de reduzir ou interromper o tratamento deve ser feita com orientação de um profissional de saúde, principalmente quando o medicamento vem sendo utilizado há muitos meses.

O uso consciente faz toda a diferença

O omeprazol continua sendo um medicamento muito eficaz e indispensável para diversas doenças do aparelho digestivo. No entanto, ele não deve ser usado indefinidamente apenas para controlar sintomas ocasionais.

Se a azia ou o refluxo persistem, o mais importante é investigar a causa. Em muitos casos, mudanças na alimentação, perda de peso, redução do consumo de álcool, parar de fumar e ajustes nos horários das refeições podem diminuir significativamente os sintomas, reduzindo a necessidade do uso contínuo do medicamento.

O maior alerta não é contra o omeprazol em si, mas contra a automedicação prolongada, que pode atrasar diagnósticos e favorecer complicações silenciosas ao longo do tempo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn