Tecnologia inédita consegue enxergar o interior de baterias e motores como nunca antes

Nova lente de nêutrons permite enxergar o interior de materiais com precisão sem precedentes. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Já imaginou observar o interior de uma bateria funcionando, acompanhar a circulação de óleo dentro de um motor ou estudar artefatos arqueológicos sem causar qualquer dano? Esse tipo de análise já era possível com o uso de nêutrons, mas uma limitação tecnológica impedia a obtenção de imagens realmente detalhadas. Agora, pesquisadores deram um passo histórico ao desenvolver a primeira lente acromática de nêutrons, uma inovação que pode transformar a forma como cientistas investigam materiais e dispositivos em funcionamento.

O avanço foi descrito na revista Nature Communications, em estudo liderado por Mano Raj Dhanalakshmi Veeraraj, e representa uma das maiores evoluções da imagem por nêutrons das últimas décadas.

Por que os nêutrons são tão importantes para a ciência?

Assim como os raios X, os nêutrons conseguem atravessar diversos materiais sólidos. Entretanto, eles apresentam uma característica única: interagem de maneira muito eficiente com elementos leves, como hidrogênio e lítio, fundamentais em inúmeros processos biológicos e industriais. Essa propriedade permite visualizar estruturas que outras técnicas têm dificuldade em revelar, incluindo:

  • Lítio distribuído dentro de baterias recarregáveis.
  • Óleo circulando em motores durante o funcionamento.
  • Movimento de água em tecidos vegetais.
  • Objetos arqueológicos preservados sem necessidade de abertura ou cortes.

Apesar desse enorme potencial, existia um obstáculo importante. Como os feixes de nêutrons possuem diversos comprimentos de onda, era extremamente difícil desenvolver uma lente capaz de focalizar todas essas partículas simultaneamente.

O desafio que permaneceu por décadas

Durante muitos anos, os sistemas de imagem por nêutrons praticamente funcionaram sem lentes. Por esse motivo, as amostras precisavam permanecer muito próximas ao detector, limitando tanto a resolução quanto o tamanho dos objetos que poderiam ser analisados.

A nova lente acromática de nêutrons supera exatamente essa dificuldade. Seu projeto permite concentrar uma ampla faixa de comprimentos de onda em um único ponto, produzindo imagens ampliadas e muito mais nítidas.

Nos testes realizados, os pesquisadores conseguiram obter resolução inferior a 20 micrômetros, equivalente a uma pequena fração da espessura de um fio de cabelo humano.

Como essa tecnologia funciona

O novo sistema combina dois princípios físicos diferentes para controlar o feixe de nêutrons. A lente é formada por:

  • Anéis concêntricos de níquel, responsáveis pela difração das partículas.
  • Estruturas extremamente precisas de diamante, que promovem a refração dos nêutrons.

A atuação conjunta desses componentes gera imagens ampliadas com qualidade inédita para esse tipo de técnica.

Esse conceito surgiu a partir de pesquisas anteriores desenvolvidas com lentes acromáticas para raios X, adaptadas posteriormente para aplicações envolvendo nêutrons.

O que muda para a pesquisa científica

Para demonstrar a eficiência da nova tecnologia, os cientistas analisaram uma bateria comercial de íons de lítio posicionada a aproximadamente seis metros do detector. Mesmo nessa distância, foi possível ampliar em cerca de sete vezes a estrutura interna dos eletrodos. Esse resultado abre caminho para uma nova geração de estudos em diversas áreas, como:

  • Desenvolvimento de baterias mais eficientes.
  • Engenharia de motores e turbinas.
  • Ciência dos materiais.
  • Energia renovável.
  • Arqueologia e conservação de patrimônio histórico.

Além disso, futuras instalações científicas, como a European Spallation Source (ESS), na Suécia, deverão explorar ainda mais o potencial dessa tecnologia.

Uma nova era para enxergar o invisível

A criação da primeira lente acromática de nêutrons representa muito mais do que um avanço técnico. Ela inaugura uma nova etapa para a microscopia por nêutrons, permitindo investigar estruturas internas com um nível de detalhe que até pouco tempo parecia inalcançável.

Segundo o estudo publicado na Nature Communications, liderado por Mano Raj Dhanalakshmi Veeraraj, essa inovação pode acelerar descobertas em áreas que vão da engenharia à biologia. Ao possibilitar a observação de materiais enquanto desempenham suas funções, a tecnologia oferece aos pesquisadores uma oportunidade inédita de compreender processos complexos em tempo real, ampliando significativamente as possibilidades da ciência moderna.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes