Nem todo azeite é igual: um tipo protege mais a memória, aponta estudo 

Polifenóis do azeite ajudam a proteger a memória. (Foto: Getty Images via Canva)

O azeite de oliva extravirgem é um dos principais símbolos da dieta mediterrânea e já conquistou espaço entre os alimentos mais estudados quando o assunto é saúde cardiovascular. Nos últimos anos, porém, os cientistas passaram a investigar outro possível benefício: a proteção do cérebro contra o envelhecimento e o declínio da memória.

O segredo não está apenas na gordura saudável presente no azeite, mas também em seus compostos fenólicos, como o oleocantal e o hidroxitirosol. Essas substâncias possuem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias que ajudam a proteger as células nervosas contra danos provocados pelo estresse oxidativo e pela neuroinflamação, um processo associado ao envelhecimento cerebral e a doenças neurodegenerativas.

Entretanto, nem todo azeite oferece a mesma quantidade desses compostos. O azeite extravirgem, obtido por processos mecânicos e com menor grau de processamento, preserva concentrações muito maiores dessas moléculas bioativas do que versões refinadas.

A inflamação silenciosa também afeta o cérebro

Quando ouvimos a palavra inflamação, normalmente pensamos em dor, vermelhidão ou inchaço. No cérebro, porém, esse processo acontece de forma muito mais discreta.

A neuroinflamação crônica envolve a ativação prolongada de células de defesa do sistema nervoso, favorecendo alterações que podem comprometer a comunicação entre os neurônios ao longo dos anos.

Esse mecanismo tem sido relacionado à piora da memória, redução da capacidade cognitiva e maior risco de doenças como Alzheimer e outras formas de demência.

Por isso, pesquisadores buscam estratégias capazes de reduzir esse processo por meio da alimentação e do estilo de vida.

Compostos naturais fazem a diferença

O benefício do azeite não depende apenas da presença de gorduras monoinsaturadas.

Os polifenóis encontrados no azeite extravirgem apresentam diferentes ações biológicas, entre elas:

  • redução do estresse oxidativo;
  • modulação da resposta inflamatória;
  • proteção das membranas celulares;
  • auxílio na comunicação entre neurônios.

Esses efeitos ajudam a explicar por que o extravirgem costuma apresentar resultados superiores aos observados com azeites mais refinados.

Revisão recente fortalece as evidências sobre memória e neuroproteção

Uma revisão sistemática com metanálise, publicada na revista Clinical Nutrition ESPEN, em 23 de fevereiro de 2026, e conduzida por Victor Cordeiro Simão, avaliou ensaios clínicos envolvendo o consumo de azeite de oliva extravirgem por idosos com comprometimento cognitivo leve ou demência.

Após analisar os estudos disponíveis, os pesquisadores observaram que o consumo de azeite extravirgem esteve associado a melhor desempenho em testes cognitivos e apresentou potencial para contribuir com a preservação da função cerebral quando utilizado como parte de uma alimentação saudável. Os autores destacam que seus compostos fenólicos podem atuar reduzindo processos relacionados à neuroinflamação e ao estresse oxidativo, mecanismos frequentemente envolvidos no envelhecimento do cérebro. Apesar dos resultados promissores, eles ressaltam que novos ensaios clínicos maiores ainda são necessários para confirmar esses benefícios em diferentes populações.

A escolha do azeite também importa

Para aproveitar melhor os compostos bioativos do azeite, vale observar alguns cuidados:

  • prefira azeite de oliva extravirgem;
  • armazene o produto longe da luz e do calor;
  • mantenha a embalagem bem fechada;
  • utilize o azeite regularmente dentro de uma alimentação equilibrada.

Vale lembrar que nenhum alimento isolado protege o cérebro. Os benefícios aparecem quando o azeite faz parte de um padrão alimentar saudável, associado à prática de atividade física, sono adequado e controle dos fatores de risco cardiovasculares.

Em outras palavras, escolher um azeite extravirgem de boa qualidade pode ser um pequeno hábito diário que contribui para a saúde cerebral ao longo dos anos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn