Quando um objeto atravessa o Sistema Solar vindo do espaço profundo, a tendência é imaginar um visitante nascido ao redor de outra estrela. Foi assim com 1I/’Oumuamua, depois com 2I/Borisov e, mais recentemente, com 3I/ATLAS. Esses corpos ficaram conhecidos como objetos interestelares, mensageiros raros de sistemas planetários distantes. Mas uma nova hipótese acrescenta um detalhe fascinante a essa história: alguns intrusos que parecem vindos de fora talvez sejam, na verdade, velhos conhecidos do próprio Sol tentando voltar para casa.
É essa a ideia por trás dos chamados objetos quase interestelares, ou quasi-ISOs. Em um estudo disponibilizado no arXiv, os autores propõem que parte dos pequenos corpos expulsos do Sistema Solar ao longo de sua história pode não ter se perdido para sempre. Em casos raros, a gravidade solar ainda poderia influenciar suas trajetórias de maneira sutil, permitindo um retorno muito tardio ao interior do sistema.
O Sol pode ter expulsado uma quantidade absurda de cometas e asteroides
A hipótese parte de um cenário já bastante discutido na astronomia: o Sistema Solar primitivo foi um ambiente caótico. Durante a formação dos planetas gigantes e a reorganização gravitacional dos corpos menores, cometas e asteroides foram arremessados para longe em números gigantescos.
Estimativas usadas no novo trabalho sugerem que cerca de 95% dos pequenos corpos produzidos no Sistema Solar podem ter sido lançados ao espaço interestelar. Estamos falando de uma população colossal, com algo na escala de trilhões de trilhões de objetos maiores que um arranha-céu. Muitos deles teriam se dispersado pela Via Láctea, formando um fluxo de detritos solares viajando entre as estrelas. A questão intrigante é a seguinte: alguns desses exilados poderiam voltar?
O que são os “quase interestelares”
Os quase interestelares seriam justamente esses corpos ejetados do Sistema Solar em algum momento do passado, mas que, por circunstâncias orbitais específicas, acabariam retornando às vizinhanças do Sol. Eles não seriam objetos interestelares “verdadeiros”, porque sua origem continuaria sendo o nosso próprio sistema planetário. Ainda assim, também não se comportariam como cometas comuns recém-desprendidos da Nuvem de Oort.
É por isso que o conceito chama tanta atenção. Esses objetos ocupariam uma espécie de zona cinzenta entre duas categorias conhecidas:
- objetos interestelares genuínos, vindos de outros sistemas estelares;
- cometas de longo período, que saem da Nuvem de Oort e visitam o Sistema Solar interno após perturbações gravitacionais.
Por que eles seriam tão difíceis de encontrar?
O estudo sugere que os quasi-ISOs seriam raros e, em geral, mais lentos do que os objetos interestelares confirmados até agora. Isso já ajudaria a diferenciá-los de visitantes como ‘Oumuamua ou Borisov, que atravessaram o Sistema Solar com velocidades incompatíveis com objetos presos gravitacionalmente ao Sol.
Ainda assim, detectá-los seria um grande desafio. O problema é que esses candidatos podem se misturar visualmente à população muito maior de cometas de longa duração. Em outras palavras, mesmo que um quase interestelar apareça, ele talvez seja confundido com um objeto comum vindo da Nuvem de Oort.
As estimativas do trabalho são conservadoras: pode haver menos de um quasi-ISO por ano cruzando a região próxima à órbita de Júpiter. Isso significa que até levantamentos extremamente poderosos, como o Legacy Survey of Space and Time (LSST) do Observatório Vera Rubin, podem passar anos sem registrar um único caso inequívoco.
Por que essa hipótese importa para entender o passado do Sistema Solar?
Mesmo que esses objetos sejam raríssimos, a ideia é cientificamente valiosa. Se um quasi-ISO for identificado com segurança no futuro, ele poderá funcionar como uma cápsula do tempo do próprio Sistema Solar. Diferentemente de um cometa comum da Nuvem de Oort, ele carregaria a assinatura de um corpo que foi expulso, vagou pelo ambiente interestelar e depois retornou.
Isso ajudaria a responder perguntas importantes sobre a formação do Sistema Solar, a dinâmica gravitacional dos planetas gigantes e o destino de incontáveis pequenos corpos lançados ao espaço ao longo de bilhões de anos. Também ampliaria a discussão sobre o que realmente significa chamar um objeto de “interestelar”.
No fim das contas, a hipótese dos objetos quase interestelares lembra que o espaço não é feito apenas de idas sem volta. Em alguns casos, o Sistema Solar pode ter seus próprios bumerangues cósmicos, viajantes expulsos há eras e que, por capricho da gravidade, talvez ainda consigam encontrar o caminho de volta.
