A sensação de ouvido tampado costuma causar preocupação imediata. Muitas pessoas acreditam que o problema é sempre resultado do acúmulo de cerúmen, popularmente conhecido como cera de ouvido. No entanto, essa percepção nem sempre corresponde à realidade. Em diversos casos, o desconforto está relacionado à disfunção da tuba auditiva, uma estrutura responsável por equilibrar a pressão entre o ouvido médio e o ambiente.
Embora ambas as condições provoquem sintomas semelhantes, elas têm causas, mecanismos e tratamentos completamente diferentes. Saber identificar essas diferenças é essencial para evitar medidas que podem até agravar o problema, como o uso de hastes flexíveis para tentar remover a cera.
Quando a cera deixa de proteger e passa a atrapalhar
O cerúmen desempenha uma função importante na saúde auditiva. Ele lubrifica o canal auditivo, dificulta a proliferação de microrganismos e ajuda a capturar partículas de poeira antes que elas atinjam o tímpano.
O problema surge quando ocorre um acúmulo excessivo, formando um tampão que bloqueia parcial ou totalmente o canal auditivo. Nessa situação, podem aparecer sintomas como:
- Sensação de ouvido fechado
- Redução temporária da audição
- Zumbido
- Coceira
- Leve desconforto local
Esse excesso pode ocorrer naturalmente, mas também é favorecido pelo uso frequente de cotonetes, aparelhos auditivos e fones intra auriculares, que acabam empurrando a cera para regiões mais profundas.
A tuba auditiva também pode ser a responsável
Nem sempre existe cera obstruindo o ouvido. Em muitos casos, a sensação de pressão acontece porque a tuba auditiva, também chamada de trompa de Eustáquio, não consegue abrir adequadamente.
Essa estrutura liga o ouvido médio à parte posterior do nariz e permite igualar a pressão interna com a pressão atmosférica. Quando seu funcionamento é prejudicado por resfriados, rinite alérgica, sinusites ou inflamações, o ar deixa de circular normalmente.
Como consequência, surgem sintomas como:
- Pressão no ouvido
- Sensação de ouvido tampado
- Estalos ao engolir ou bocejar
- Audição abafada
- Desconforto durante viagens de avião ou mudanças de altitude
Diferentemente do excesso de cerúmen, nesses casos o canal auditivo costuma estar completamente livre.
O que os estudos atuais mostram sobre esse mecanismo do ouvido
Um estudo publicado na revista mSystems, em 19 de maio de 2026, liderado por Xiaoxin Chen, investigou a relação entre a disfunção obstrutiva da tuba auditiva e o microbioma presente na nasofaringe e no ouvido médio de pacientes com otite média crônica.
Os pesquisadores identificaram diferenças importantes na composição das bactérias presentes nessas regiões, sugerindo que alterações no microbioma podem influenciar o funcionamento da tuba auditiva e contribuir para processos inflamatórios persistentes. Embora o estudo tenha sido realizado em pacientes com doença crônica do ouvido médio, os resultados ampliam a compreensão sobre os mecanismos biológicos envolvidos na disfunção da tuba auditiva e podem abrir caminho para novas estratégias terapêuticas.
Quando procurar avaliação médica
Nem sempre é possível distinguir sozinho qual é a origem do ouvido tampado. Por isso, uma avaliação com otoscopia pode identificar rapidamente se existe excesso de cerúmen ou se o problema está relacionado ao ouvido médio.
É especialmente importante procurar atendimento quando os sintomas vêm acompanhados de:
- Dor intensa
- Febre
- Saída de secreção
- Perda importante da audição
- Tontura persistente
Na maioria das situações, tanto o excesso de cerúmen quanto a disfunção da tuba auditiva têm tratamento eficaz quando o diagnóstico é realizado corretamente. O mais importante é evitar a automedicação e a tentativa de remover a cera com objetos, já que isso pode causar lesões e até empurrar o cerúmen ainda mais para dentro do canal auditivo.
