Sensação de ouvido tampado? A causa pode estar além da cera

Ouvido tampado nem sempre é excesso de cerúmen. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

A sensação de ouvido tampado costuma causar preocupação imediata. Muitas pessoas acreditam que o problema é sempre resultado do acúmulo de cerúmen, popularmente conhecido como cera de ouvido. No entanto, essa percepção nem sempre corresponde à realidade. Em diversos casos, o desconforto está relacionado à disfunção da tuba auditiva, uma estrutura responsável por equilibrar a pressão entre o ouvido médio e o ambiente.

Embora ambas as condições provoquem sintomas semelhantes, elas têm causas, mecanismos e tratamentos completamente diferentes. Saber identificar essas diferenças é essencial para evitar medidas que podem até agravar o problema, como o uso de hastes flexíveis para tentar remover a cera.

Quando a cera deixa de proteger e passa a atrapalhar

O cerúmen desempenha uma função importante na saúde auditiva. Ele lubrifica o canal auditivo, dificulta a proliferação de microrganismos e ajuda a capturar partículas de poeira antes que elas atinjam o tímpano.

O problema surge quando ocorre um acúmulo excessivo, formando um tampão que bloqueia parcial ou totalmente o canal auditivo. Nessa situação, podem aparecer sintomas como:

  • Sensação de ouvido fechado
  • Redução temporária da audição
  • Zumbido
  • Coceira
  • Leve desconforto local

Esse excesso pode ocorrer naturalmente, mas também é favorecido pelo uso frequente de cotonetes, aparelhos auditivos e fones intra auriculares, que acabam empurrando a cera para regiões mais profundas.

A tuba auditiva também pode ser a responsável

Nem sempre existe cera obstruindo o ouvido. Em muitos casos, a sensação de pressão acontece porque a tuba auditiva, também chamada de trompa de Eustáquio, não consegue abrir adequadamente.

Essa estrutura liga o ouvido médio à parte posterior do nariz e permite igualar a pressão interna com a pressão atmosférica. Quando seu funcionamento é prejudicado por resfriados, rinite alérgica, sinusites ou inflamações, o ar deixa de circular normalmente.

Como consequência, surgem sintomas como:

  • Pressão no ouvido
  • Sensação de ouvido tampado
  • Estalos ao engolir ou bocejar
  • Audição abafada
  • Desconforto durante viagens de avião ou mudanças de altitude

Diferentemente do excesso de cerúmen, nesses casos o canal auditivo costuma estar completamente livre.

O que os estudos atuais mostram sobre esse mecanismo do ouvido 

Um estudo publicado na revista mSystems, em 19 de maio de 2026, liderado por Xiaoxin Chen, investigou a relação entre a disfunção obstrutiva da tuba auditiva e o microbioma presente na nasofaringe e no ouvido médio de pacientes com otite média crônica.

Os pesquisadores identificaram diferenças importantes na composição das bactérias presentes nessas regiões, sugerindo que alterações no microbioma podem influenciar o funcionamento da tuba auditiva e contribuir para processos inflamatórios persistentes. Embora o estudo tenha sido realizado em pacientes com doença crônica do ouvido médio, os resultados ampliam a compreensão sobre os mecanismos biológicos envolvidos na disfunção da tuba auditiva e podem abrir caminho para novas estratégias terapêuticas.

Quando procurar avaliação médica

Nem sempre é possível distinguir sozinho qual é a origem do ouvido tampado. Por isso, uma avaliação com otoscopia pode identificar rapidamente se existe excesso de cerúmen ou se o problema está relacionado ao ouvido médio.

É especialmente importante procurar atendimento quando os sintomas vêm acompanhados de:

  • Dor intensa
  • Febre
  • Saída de secreção
  • Perda importante da audição
  • Tontura persistente

Na maioria das situações, tanto o excesso de cerúmen quanto a disfunção da tuba auditiva têm tratamento eficaz quando o diagnóstico é realizado corretamente. O mais importante é evitar a automedicação e a tentativa de remover a cera com objetos, já que isso pode causar lesões e até empurrar o cerúmen ainda mais para dentro do canal auditivo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn