Barriga roncou? Entenda a causa e quando se preocupar

Complexo mioelétrico regula sons do intestino. (Foto: Jittawit21 via Canva)
Complexo mioelétrico regula sons do intestino. (Foto: Jittawit21 via Canva)

O ambiente está em silêncio absoluto, e de repente o corpo resolve “se pronunciar” com sons vindos da barriga. Esse momento constrangedor é extremamente comum e, na maioria das vezes, totalmente normal. O que muita gente não sabe é que esses ruídos fazem parte de um processo fisiológico contínuo chamado motilidade gastrointestinal, regulado por um mecanismo sofisticado conhecido como Complexo Mioelétrico Migratório (CMM).

Esses sons não indicam necessariamente fome ou problemas digestivos. Na verdade, eles representam a atividade natural do intestino funcionando mesmo fora do período de alimentação.

O “ciclo de limpeza” invisível do sistema digestivo

Entre as refeições, o sistema digestivo não fica parado. Pelo contrário, ele entra em um padrão organizado de contrações musculares que percorrem o estômago e o intestino delgado.

Esse padrão é o Complexo Mioelétrico Migratório, uma espécie de “onda de varredura” que:

  • movimenta resíduos alimentares não digeridos
  • remove secreções acumuladas
  • ajuda a manter o intestino limpo entre refeições
  • prepara o sistema para a próxima ingestão alimentar

Durante essa fase, os músculos do trato gastrointestinal se contraem de forma ritmada e sequencial, criando os sons que ouvimos como borborigmos.

Por que o som fica mais evidente no silêncio?

Os ruídos intestinais sempre existem, mas ficam mais perceptíveis em momentos de silêncio ou baixa distração. Isso acontece porque:

  • há menos sons ambientais competindo com o ruído interno
  • o cérebro aumenta a percepção de sinais corporais
  • o estômago pode estar parcialmente vazio, aumentando a movimentação de gases e líquidos

Além disso, quando há presença de ar no trato digestivo, as contrações musculares deslocam esse conteúdo, amplificando o som.

Fome ou funcionamento normal? Nem sempre é a mesma coisa

Embora o barulho abdominal seja frequentemente associado à fome, ele não depende exclusivamente disso. O CMM ocorre de forma cíclica, mesmo após longos períodos sem ingestão alimentar.

No entanto, em situações de jejum prolongado, esses sons podem se intensificar devido ao aumento da atividade motora do estômago e intestino.

Outros fatores que podem influenciar incluem:

  • ingestão de líquidos em jejum
  • consumo de alimentos ricos em fibras
  • ansiedade e estresse
  • velocidade do trânsito intestinal

O papel da motilidade gastrointestinal no equilíbrio do intestino

A motilidade gastrointestinal é essencial para o bom funcionamento digestivo. Ela garante que os alimentos sejam movimentados ao longo do trato intestinal de forma coordenada, permitindo digestão e absorção adequadas.

Quando esse sistema está equilibrado, o corpo consegue:

  • processar alimentos de forma eficiente
  • evitar acúmulo de resíduos
  • manter o fluxo intestinal regular
  • reduzir fermentação excessiva

Os sons são apenas um reflexo auditivo desse processo contínuo.

O que observar nos barulhos abdominais persistentes 

Na maioria das situações, os ruídos intestinais são normais. No entanto, alterações no padrão podem indicar desequilíbrios digestivos, especialmente quando acompanhados de outros sintomas.

Sinais que merecem atenção incluem:

  • dor abdominal persistente
  • distensão abdominal frequente
  • alteração importante no hábito intestinal
  • ausência total de sons intestinais em alguns casos

Nessas situações, a avaliação profissional pode ajudar a identificar possíveis causas funcionais ou inflamatórias.

O corpo nunca está realmente em silêncio

Mesmo quando tudo parece quieto, o sistema digestivo continua ativo. Os sons da barriga são apenas a expressão audível de um processo fisiológico complexo, coordenado e constante.

O Complexo Mioelétrico Migratório mostra que o intestino segue trabalhando em ciclos organizados, mesmo fora das refeições, mantendo o equilíbrio interno necessário para a digestão eficiente.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn

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