Novo material transforma luz solar em ultravioleta e pode revolucionar diversas tecnologias

Novo material transforma luz solar em ultravioleta e pode revolucionar tecnologias sustentáveis. (Imagem: Naoyuki Harada / Kyushu University)
Novo material transforma luz solar em ultravioleta e pode revolucionar tecnologias sustentáveis. (Imagem: Naoyuki Harada / Kyushu University)

A luz solar é uma das maiores fontes de energia disponíveis na Terra. No entanto, grande parte dela chega até nós na forma de luz visível, enquanto apenas uma pequena fração corresponde à radiação ultravioleta (UV), essencial para diversas aplicações industriais e científicas. Agora, pesquisadores desenvolveram um novo material de estado sólido capaz de transformar luz visível em luz ultravioleta utilizando apenas a iluminação natural do Sol. A descoberta representa um avanço importante para tecnologias sustentáveis e pode permitir processos que hoje dependem de fontes artificiais de radiação UV.

O estudo foi publicado na revista Nature Communications, por Naoyuki Harada e colaboradores, em 23 de junho de 2026.

Como transformar luz comum em radiação mais energética?

À primeira vista, converter uma luz de menor energia em outra de energia mais elevada parece impossível. Entretanto, esse processo ocorre graças a um fenômeno conhecido como conversão ascendente de fótons.

Nesse mecanismo, dois fótons de luz visível têm suas energias combinadas para gerar um único fóton de luz ultravioleta, que possui energia significativamente maior.

Para isso acontecer, o sistema utiliza um processo chamado aniquilação tripleto tripleto, no qual moléculas absorvem energia da luz visível, transferem essa energia entre si e, posteriormente, liberam um fóton ultravioleta.

Até então, esse fenômeno funcionava de forma eficiente principalmente em soluções líquidas, que apresentam limitações como evaporação, menor estabilidade e uso de solventes pouco adequados para aplicações comerciais.

O segredo está em um novo material de estado sólido

O grande avanço foi obtido com um semicondutor orgânico chamado di hidroindenoindenedeno (DHI). Os pesquisadores modificaram sua estrutura química adicionando cadeias alquílicas em posições estratégicas da molécula. Essa alteração criou um espaçamento ideal entre moléculas vizinhas, permitindo que a energia fosse transferida com eficiência sem sofrer perdas importantes. Como resultado, o material apresentou características bastante promissoras:

  • Rendimento quântico superior a 60% no estado sólido.
  • Transferência eficiente de energia entre moléculas.
  • Alta estabilidade estrutural.
  • Conversão ascendente de luz visível para ultravioleta com eficiência de 1,9% utilizando apenas luz solar natural.

Embora esse percentual pareça pequeno, trata-se de um resultado expressivo para materiais sólidos operando sob condições reais de iluminação.

Por que produzir luz ultravioleta é tão importante?

A radiação ultravioleta participa de diversos processos tecnológicos essenciais.

Entre suas aplicações estão:

  • Purificação do ar e de superfícies.
  • Fotocatálise para acelerar reações químicas.
  • Impressão 3D com resinas fotossensíveis.
  • Endurecimento de materiais odontológicos.
  • Processos industriais de cura de polímeros.

Como apenas cerca de 6% da radiação solar que alcança a superfície terrestre corresponde à faixa ultravioleta, ampliar sua disponibilidade utilizando a própria luz visível representa uma estratégia extremamente interessante para aumentar o aproveitamento da energia solar.

Uma descoberta construída ao longo de mais de uma década

O desenvolvimento desse material foi resultado de 14 anos de pesquisa conduzidos pela equipe da Universidade de Kyushu. O objetivo era criar um sistema sólido capaz de realizar a conversão ascendente de fótons com eficiência suficiente para aplicações práticas.

Além do desempenho alcançado, o novo material apresenta outra vantagem importante: é produzido a partir de matérias primas relativamente simples e de baixo custo, fator que pode facilitar futuras aplicações em larga escala.

Ainda serão necessários novos estudos para aumentar sua eficiência e adaptá-lo a diferentes equipamentos. Mesmo assim, o trabalho publicado por Naoyuki Harada na revista Nature Communications, em 2026, representa um marco na área da ciência dos materiais. Ao transformar parte da luz visível em radiação ultravioleta de alta energia usando apenas a luz natural do Sol, essa tecnologia amplia as possibilidades de aproveitar melhor uma das fontes de energia mais abundantes do planeta.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes

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