Nem hormônio nem antidepressivo: a nova estratégia contra o calor da menopausa 

Fogachos podem nascer de sinais enviados pelo cérebro. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Fogachos podem nascer de sinais enviados pelo cérebro. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

As ondas de calor estão entre os sintomas mais marcantes da menopausa. Muitas mulheres descrevem uma sensação súbita de calor intenso, acompanhada por suor excessivo, vermelhidão da pele e, em alguns casos, palpitações. Durante décadas, a principal explicação para esse fenômeno esteve centrada na queda do estrogênio. No entanto, a ciência descobriu que existe um mecanismo cerebral muito mais complexo por trás desses episódios.

Essa compreensão abriu caminho para uma nova geração de tratamentos que não dependem da reposição hormonal. Em vez de atuar diretamente nos níveis de hormônios femininos, essas terapias agem nos circuitos neurais responsáveis pelo controle da temperatura corporal.

O cérebro é o verdadeiro centro dos fogachos

Quando a menopausa se aproxima, os níveis de estrogênio diminuem gradualmente. Essa mudança hormonal afeta neurônios especializados localizados no hipotálamo, região responsável por regular a temperatura do corpo.

Entre as substâncias envolvidas nesse processo está a neurocinina B, um neurotransmissor que passa a apresentar atividade aumentada após a queda hormonal. Como consequência, o centro regulador da temperatura se torna mais sensível, interpretando pequenas variações corporais como se fossem um superaquecimento.

O resultado é uma resposta exagerada do organismo, desencadeando:

  • Sensação intensa de calor
  • Sudorese repentina
  • Vermelhidão facial
  • Despertares noturnos por suor excessivo

Estudos recentes mostram que bloquear os receptores da neurocinina B pode reduzir significativamente esses sintomas, atuando diretamente na origem neurológica dos fogachos. Essa estratégia é utilizada pelo fezolinetanto, um antagonista do receptor NK3.

Reposição hormonal continua sendo referência

Apesar do avanço das terapias não hormonais, a terapia hormonal da menopausa permanece como o tratamento mais eficaz para ondas de calor moderadas e intensas.

Isso acontece porque a reposição corrige a deficiência de estrogênio, abordando a causa principal de diversos sintomas do climatério.

Além de reduzir fogachos e suores noturnos, ela pode trazer benefícios para:

  • Qualidade do sono
  • Secura vaginal
  • Saúde óssea
  • Bem-estar geral

Por outro lado, nem todas as mulheres podem utilizar hormônios. Algumas apresentam contraindicações específicas, incluindo histórico de câncer hormônio-dependente, eventos tromboembólicos ou determinadas doenças cardiovasculares.

Uma nova alternativa para quem não pode usar hormônios

É justamente nesse cenário que surge o interesse pelos medicamentos que atuam sobre a neurocinina B.

Diferentemente da reposição hormonal, o fezolinetanto não aumenta os níveis de estrogênio. Seu mecanismo consiste em bloquear a sinalização exagerada que ocorre no hipotálamo, ajudando a estabilizar o controle térmico do organismo.

Os resultados dos estudos clínicos de fase 3 mostraram redução significativa tanto na frequência quanto na intensidade dos fogachos. O estudo SKYLIGHT 1, publicado na revista The Lancet em março de 2023 e liderado por Genevieve Neal-Perry, demonstrou melhora consistente dos sintomas em mulheres com menopausa moderada a grave.

Posteriormente, uma análise publicada no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, em abril de 2023, tendo JoAnn V. Pinkerton como autora principal, destacou a eficácia e a segurança do bloqueio do receptor NK3 para o tratamento dos sintomas vasomotores da menopausa.

Mais recentemente, um estudo de fase 3b publicado no BMJ em novembro de 2024, liderado por Rossella E. Nappi, avaliou mulheres consideradas inadequadas para terapia hormonal e encontrou reduções significativas na frequência e gravidade dos fogachos com o uso do fezolinetanto.

O futuro do tratamento da menopausa

A chegada de medicamentos que atuam no cérebro representa uma mudança importante na compreensão da menopausa. Hoje, os especialistas enxergam os fogachos não apenas como consequência da queda hormonal, mas também como resultado de alterações em circuitos neurais responsáveis pelo equilíbrio térmico.

Isso não significa que a terapia hormonal perderá sua importância. Pelo contrário, ela continua sendo a opção mais abrangente para muitas mulheres. Entretanto, o surgimento de tratamentos direcionados à neurocinina B amplia as possibilidades terapêuticas e oferece novas alternativas para quem não pode ou não deseja utilizar hormônios.

Quanto mais a ciência desvenda os mecanismos da menopausa, mais personalizados tendem a se tornar os tratamentos disponíveis, permitindo que cada mulher encontre a estratégia mais adequada para atravessar essa fase com qualidade de vida.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn

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