Vitamina B3 mostra efeito inesperado contra câncer cerebral agressivo 

Niacina pode ajudar resposta imune no glioblastoma. (Foto: Getty Images via Canva)
Niacina pode ajudar resposta imune no glioblastoma. (Foto: Getty Images via Canva)

Em meio aos desafios do tratamento do glioblastoma, um dos tumores cerebrais mais agressivos e difíceis de controlar, uma abordagem inesperada tem chamado atenção da neuro-oncologia: o uso da vitamina B3 (niacina) em altas doses como potencial moduladora do sistema imunológico. Embora ainda em fase experimental, os resultados iniciais sugerem uma possível ampliação da resposta do organismo contra o tumor.

Sistema imunológico perde força dentro do cérebro

O glioblastoma se destaca por sua capacidade de crescer rapidamente e resistir aos tratamentos convencionais. Mesmo após cirurgia, radioterapia e quimioterapia, há uma alta taxa de recorrência. Um dos motivos centrais é a forma como esse câncer atua: ele cria um ambiente que suprime a atividade do sistema imunológico, dificultando a ação de células de defesa.

Nesse cenário, o organismo passa a ter menor capacidade de reconhecer e atacar as células tumorais, permitindo sua progressão silenciosa e agressiva.

A hipótese científica por trás da vitamina B3

Pesquisadores da Universidade de Calgary investigaram se a niacina, uma forma da vitamina B3, poderia atuar como um “reativador” das células imunológicas enfraquecidas.

A lógica do estudo é baseada em um ponto central da imunologia:

  • células imunológicas podem entrar em estado de baixa atividade em ambientes tumorais
  • a niacina poderia ajudar a restaurar parte dessa funcionalidade
  • isso aumentaria a capacidade de reconhecimento e ataque às células cancerígenas

Em modelos experimentais iniciais com animais, observou-se aumento de sobrevida, o que motivou a transição para testes em humanos.

O que o estudo clínico revelou até agora

Um ensaio clínico de fase I e II avaliou o uso de niacina de liberação controlada combinada com o tratamento padrão (quimioterapia e radioterapia).

O desenho do estudo estabeleceu um critério rigoroso: seria necessário observar melhora significativa na sobrevida livre de progressão em seis meses para considerar o protocolo promissor.

Os resultados iniciais com 24 pacientes mostraram:

  • cerca de 82% sem progressão da doença após seis meses
  • melhora estimada de 28% em relação a dados anteriores
  • boa tolerabilidade dentro de protocolos médicos monitorados

Esses dados foram publicados no Journal of Neuro-Oncology (2025), em estudo liderado por Gloria Roldan Urgoiti e colaboradores.

Reativação imunológica e o conceito de “batalha cerebral”

A hipótese central do estudo envolve a ideia de que o câncer não apenas cresce, mas também desregula a comunicação entre tumor e sistema imunológico.

Nesse contexto, a niacina poderia atuar como um suporte metabólico, auxiliando na recuperação parcial da atividade de células de defesa. Isso não significa destruição direta do tumor pela vitamina, mas sim uma possível melhora na capacidade do organismo de responder ao câncer em conjunto com terapias convencionais.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn

A Crise Silenciosa dos Mares Ressaca ou Intoxicação? Como Diferenciar os Sintomas Por que as Aves Voam em Formato de “V”?