Estresse crônico muda o lugar onde seu corpo acumula gordura 

Cortisol alto altera onde a gordura se acumula. (Foto: Pexels via Canva)
Cortisol alto altera onde a gordura se acumula. (Foto: Pexels via Canva)

Você tenta manter uma alimentação equilibrada, faz escolhas conscientes e até controla as porções. Mesmo assim, a barriga parece crescer em períodos de maior pressão no trabalho, preocupações financeiras ou problemas pessoais. A explicação pode estar muito além das calorias consumidas.

O corpo humano foi programado para sobreviver a ameaças. Quando o cérebro interpreta uma situação como estressante, ele ativa uma série de mecanismos biológicos que ajudam a enfrentar o problema. O desafio surge quando esse sistema permanece ligado por semanas ou meses. Nesse cenário, o organismo passa a funcionar sob a influência constante de hormônios que alteram o metabolismo, o apetite e até o local onde a gordura é armazenada.

Cérebro entra em modo de sobrevivência

Em situações de estresse, o organismo libera cortisol, um hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais. Em curto prazo, ele é essencial para fornecer energia rápida ao corpo.

O problema aparece quando os níveis de cortisol permanecem elevados por longos períodos. Nessa condição, ocorrem alterações importantes, como:

  • Maior desejo por alimentos ricos em açúcar e carboidratos refinados;
  • Flutuações nos níveis de glicose sanguínea;
  • Redução da sensibilidade à insulina;
  • Maior facilidade para armazenar gordura.

Além disso, o cortisol influencia diretamente a atividade das células adiposas, especialmente aquelas localizadas na cavidade abdominal.

A gordura da barriga não é igual à gordura de outras regiões

Nem toda gordura corporal se comporta da mesma maneira. Existe a gordura subcutânea, localizada logo abaixo da pele, e a gordura visceral, que envolve órgãos como fígado, intestinos e pâncreas.

A gordura visceral possui uma característica importante: apresenta maior quantidade de receptores para glicocorticoides, grupo de hormônios do qual o cortisol faz parte. Isso significa que ela responde de forma mais intensa aos sinais hormonais relacionados ao estresse.

Com o tempo, o excesso de cortisol favorece a diferenciação de novas células adiposas nessa região, aumentando gradualmente o depósito de gordura abdominal.

Um estudo publicado na revista Frontiers in Nutrition, em fevereiro de 2025, liderado por Camila Lima Chagas, destacou que a gordura visceral possui características metabólicas distintas da gordura subcutânea, estando associada a alterações mais relevantes no metabolismo da glicose, inflamação e risco cardiometabólico.

O papel pouco conhecido do neuropeptídeo Y

Outro protagonista desse processo é o neuropeptídeo Y (NPY), uma molécula produzida pelo sistema nervoso durante situações de estresse.

O NPY atua aumentando o apetite, especialmente por alimentos energéticos. Além disso, ele participa diretamente dos mecanismos de crescimento e armazenamento de gordura.

Um estudo clássico publicado na revista Nature Medicine, conduzido por Lydia E. Kuo e colaboradores, demonstrou que o NPY pode agir diretamente no tecido adiposo, promovendo o aumento da gordura abdominal em situações de estresse prolongado.

Na prática, isso cria um ciclo difícil de perceber. Quanto maior o estresse, maior a liberação de cortisol e NPY. Quanto maior a ação dessas substâncias, maior a busca por alimentos altamente palatáveis e maior o armazenamento de gordura visceral.

O impacto vai além da estética

O acúmulo de gordura abdominal não é apenas uma questão visual. A gordura visceral é metabolicamente ativa e produz substâncias inflamatórias que podem afetar diversos órgãos.

Entre os riscos associados estão:

  • Resistência à insulina;
  • Diabetes tipo 2;
  • Esteatose hepática;
  • Hipertensão arterial;
  • Maior risco cardiovascular.

Por isso, controlar o estresse não é apenas uma estratégia para melhorar o bem-estar emocional. É também uma forma de proteger o metabolismo e reduzir o acúmulo de gordura em regiões mais sensíveis do organismo.

A próxima vez que a balança subir durante uma fase difícil da vida, vale lembrar que nem sempre se trata apenas de alimentação ou exercício. Muitas vezes, o cérebro está executando um antigo programa biológico de sobrevivência que, no mundo moderno, acaba favorecendo justamente aquilo que mais queremos evitar: a gordura abdominal.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn