O som real dos dinossauros pode ser muito diferente dos filmes

Os dinossauros talvez não rugissem como nos filmes, mas tinham sons muito mais surpreendentes. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Os dinossauros talvez não rugissem como nos filmes, mas tinham sons muito mais surpreendentes. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Poucas cenas são tão marcantes no cinema quanto o rugido de um dinossauro gigante ecoando pela tela. Durante décadas, filmes e documentários popularizaram a ideia de que esses animais produziam sons assustadores semelhantes aos de grandes felinos ou répteis modernos. No entanto, a ciência tem revelado uma possibilidade muito mais interessante. Os dinossauros provavelmente não rugiam da forma como costumamos imaginar.

O desafio é que os sons não fossilizam. Diferentemente dos ossos, pegadas ou dentes, as vocalizações desaparecem sem deixar registros diretos. Mesmo assim, paleontólogos conseguem reconstruir hipóteses bastante plausíveis utilizando anatomia comparada, fósseis excepcionais e o estudo dos parentes vivos mais próximos dos dinossauros.

A pista escondida entre aves e crocodilos

Para entender como os dinossauros poderiam se comunicar, os cientistas observam dois grupos atuais que compartilham ancestrais com eles: as aves e os crocodilianos.

Essa comparação oferece informações valiosas sobre estruturas respiratórias, comportamento social e produção de sons. Curiosamente, muitos crocodilos não produzem rugidos intensos como os vistos no cinema. Em vez disso, utilizam grunhidos, vibrações de baixa frequência e vocalizações profundas para comunicação.

As aves, por sua vez, apresentam uma enorme variedade de sons, incluindo assobios, chamados, cantos e vocalizações complexas.

Como os dinossauros estão evolutivamente posicionados entre esses grupos, muitos pesquisadores acreditam que suas vocalizações poderiam ser mais variadas e sutis do que os famosos rugidos cinematográficos.

Sons graves que viajavam por longas distâncias

Imagine um animal de várias toneladas precisando se comunicar com membros do grupo espalhados por quilômetros. Nesse cenário, sons extremamente graves seriam mais eficientes do que rugidos estridentes.

Vibrações de baixa frequência conseguem percorrer grandes distâncias com menor perda de energia. Alguns cientistas sugerem que grandes dinossauros poderiam emitir sons semelhantes aos produzidos por aves modernas de grande porte ou até mesmo por crocodilos durante períodos de reprodução.

Essas vocalizações poderiam servir para:

  • Atrair parceiros.
  • Alertar sobre perigos.
  • Delimitar território.
  • Manter contato entre indivíduos do grupo.

Isso indica que a comunicação dos dinossauros talvez fosse muito mais sofisticada do que se imaginava anteriormente.

O fóssil que mudou a discussão

Uma descoberta importante ocorreu quando pesquisadores encontraram evidências preservadas de estruturas vocais em um dinossauro semelhante aos ancestrais das aves modernas.

Esses vestígios indicaram a presença de uma anatomia compatível com formas de vocalização mais próximas das aves atuais do que dos rugidos típicos representados pela cultura popular.

Além disso, estudos sobre o sistema respiratório de diversos dinossauros mostram semelhanças impressionantes com o das aves, sugerindo que eles possuíam mecanismos eficientes para produzir diferentes tipos de sons.

Embora ainda existam muitas incertezas, essas descobertas ajudam a construir uma imagem mais realista desses animais.

O cinema criou um ícone, mas a realidade pode ser ainda mais fascinante

Os rugidos famosos dos filmes cumprem uma função importante: transmitir poder, tamanho e perigo ao público. Entretanto, a ciência mostra que a natureza frequentemente é mais criativa do que a ficção.

Os dinossauros provavelmente utilizavam uma combinação de vocalizações graves, chamados complexos e sinais acústicos adaptados às suas necessidades ecológicas. Alguns poderiam produzir sons semelhantes aos de aves modernas, enquanto outros talvez utilizassem vibrações profundas quase imperceptíveis para o ouvido humano.

Embora jamais possamos ouvir um dinossauro vivo, cada novo fóssil aproxima os cientistas da reconstrução desse mundo perdido. E quanto mais aprendemos, mais percebemos que a verdadeira voz dos dinossauros pode ter sido muito mais surpreendente do que qualquer rugido de cinema.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes