Estudo associa Ozempic e similares a redução de 30% no câncer de mama 

GLP-1 foi associado a menor risco de câncer de mama. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
GLP-1 foi associado a menor risco de câncer de mama. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Os medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1 se tornaram conhecidos principalmente pela capacidade de promover perda de peso e ajudar no controle do diabetes tipo 2. No entanto, uma nova pesquisa sugere que esses fármacos podem estar relacionados a um benefício adicional que ninguém esperava há poucos anos: uma menor incidência de câncer de mama.

Embora a descoberta ainda não prove uma relação de causa e efeito, os resultados estão despertando grande interesse entre pesquisadores que estudam prevenção do câncer e saúde metabólica.

Uma descoberta que chamou atenção dos oncologistas

Os medicamentos GLP-1 incluem substâncias amplamente conhecidas, como semaglutida e tirzepatida, presentes em tratamentos populares para obesidade e diabetes.

Esses medicamentos atuam imitando a ação de um hormônio intestinal que ajuda a controlar a fome, aumentar a saciedade e melhorar o metabolismo da glicose.

Nos últimos anos, estudos começaram a sugerir que seus efeitos podem ir além da perda de peso. Agora, uma nova análise trouxe dados ainda mais robustos.

O que a pesquisa encontrou

Um estudo publicado em 2026 na revista JCO Oncology Practice, liderado por Elizabeth S. McDonald, avaliou registros médicos de 111.646 mulheres com idade entre 45 e 80 anos.

Todas apresentavam índice de massa corporal igual ou superior a 25 e haviam realizado exames de imagem mamária entre 2022 e 2025.

Os pesquisadores compararam mulheres que utilizavam medicamentos GLP-1 com aquelas que não utilizavam essa classe terapêutica.

Os resultados chamaram atenção:

  • As usuárias de GLP-1 apresentaram uma incidência significativamente menor de câncer de mama.
  • Na análise geral, a redução observada foi de aproximadamente 35%.
  • Em uma análise estatística mais rigorosa, que comparou grupos com características semelhantes, a redução permaneceu próxima de 30%.

A consistência dos resultados aumentou o interesse científico pelo tema.

Por que isso pode estar acontecendo?

Os cientistas acreditam que vários mecanismos biológicos podem estar envolvidos.

O primeiro deles é a própria perda de peso. O excesso de gordura corporal, especialmente após a menopausa, é considerado um fator de risco importante para o desenvolvimento do câncer de mama.

Além disso, os medicamentos GLP-1 parecem influenciar processos ligados à saúde celular.

Entre os possíveis mecanismos estudados estão:

  • Redução da inflamação crônica de baixo grau
  • Melhora do metabolismo energético
  • Alterações em vias hormonais
  • Influência sobre mecanismos epigenéticos que regulam a atividade dos genes

Esses fatores são frequentemente investigados por sua relação com o surgimento e a progressão de tumores.

Um resultado promissor, mas ainda não definitivo

Apesar do entusiasmo gerado pela descoberta, é importante compreender uma limitação fundamental.

O estudo foi do tipo observacional, ou seja, os pesquisadores analisaram dados já existentes e identificaram associações estatísticas.

Isso significa que ainda não é possível afirmar que medicamentos como Ozempic, Wegovy, Mounjaro ou Zepbound sejam diretamente responsáveis pela redução do risco de câncer de mama.

Outros fatores podem ter contribuído para os resultados observados.

Por esse motivo, ensaios clínicos prospectivos estão sendo planejados para investigar a questão com maior precisão.

O que essa descoberta pode significar para o futuro?

Atualmente, as estratégias de prevenção do câncer de mama incluem rastreamento por mamografia, controle de fatores de risco e, em situações específicas, medicamentos ou intervenções preventivas.

A pesquisa publicada na JCO Oncology Practice por Elizabeth S. McDonald em 2026 sugere que os agonistas do GLP-1 podem representar uma nova área de investigação nesse campo.

Ainda é cedo para considerar esses medicamentos como ferramentas de prevenção do câncer. Porém, os resultados obtidos em mais de 110 mil mulheres indicam que existe uma hipótese científica sólida que merece estudos mais aprofundados.

Se futuras pesquisas confirmarem essa associação, os medicamentos que hoje revolucionam o tratamento da obesidade poderão também abrir uma nova frente na prevenção de uma das doenças mais comuns entre as mulheres.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn