Pesquisa liga suplemento para articulações a avanço mais rápido do Alzheimer 

Glucosamina chamou atenção de cientistas. (Foto: Stefanut Sava's Images via Canva)
Glucosamina chamou atenção de cientistas. (Foto: Stefanut Sava's Images via Canva)

Milhões de pessoas utilizam suplementos alimentares diariamente acreditando que, por serem vendidos sem receita, apresentam poucos riscos. Entre eles, a glucosamina ocupa uma posição de destaque, especialmente entre adultos mais velhos que buscam aliviar dores articulares e preservar a mobilidade.

No entanto, uma descoberta recente chamou a atenção da comunidade científica. Um estudo publicado em 9 de junho de 2025, na revista Nature Metabolism, liderado por Ramon Sun, da Universidade da Flórida, encontrou uma associação preocupante entre o uso da glucosamina e a progressão da doença de Alzheimer.

Embora os resultados não comprovem que o suplemento cause demência, eles levantam questões importantes sobre como determinadas substâncias podem interagir com processos metabólicos já alterados no cérebro de pessoas com comprometimento cognitivo.

O que os registros de milhares de pacientes revelaram 

A glucosamina é amplamente utilizada para a saúde das articulações. Ela participa naturalmente da formação de estruturas presentes em cartilagens e tecidos conjuntivos.

Entretanto, os pesquisadores decidiram investigar se essa molécula poderia exercer efeitos inesperados no cérebro, especialmente em indivíduos com comprometimento cognitivo leve, condição frequentemente considerada uma etapa intermediária entre o envelhecimento normal e a demência.

Para isso, a equipe analisou registros eletrônicos de saúde coletados entre 2012 e 2024. Com auxílio de ferramentas de inteligência artificial, foram avaliados milhares de pacientes diagnosticados com comprometimento cognitivo leve ou demência relacionada ao Alzheimer.

Os resultados mostraram que pessoas com comprometimento cognitivo leve que utilizavam glucosamina apresentavam uma probabilidade aproximadamente 25% maior de evoluir para demência em comparação com aqueles que não utilizavam o suplemento.

Além disso, entre pacientes já diagnosticados com Alzheimer, o uso da glucosamina esteve associado a um aumento semelhante no risco de mortalidade.

O que acontece dentro das células cerebrais?

O estudo não se limitou à análise de registros médicos. Os pesquisadores também investigaram o que ocorria em nível molecular.

A atenção se voltou para um mecanismo conhecido como glicosilação, um processo biológico no qual moléculas de açúcar são adicionadas às proteínas.

Em condições normais, essa modificação é essencial para o funcionamento adequado das células. Porém, os cientistas descobriram evidências de que esse sistema parece estar excessivamente ativo no cérebro afetado pelo Alzheimer.

Como a glucosamina consegue atravessar a barreira hematoencefálica, ela pode influenciar diretamente essa via metabólica.

Segundo os resultados, o excesso dessa atividade pode alterar o comportamento de proteínas importantes para a saúde neuronal, contribuindo para a progressão da doença.

O que os experimentos em laboratório revelaram

Para aprofundar a investigação, os cientistas realizaram testes em modelos experimentais de Alzheimer.

Os animais que receberam glucosamina apresentaram aumento da atividade de glicosilação dentro das células cerebrais. Paralelamente, foram observados déficits mais acentuados em testes relacionados à memória social.

Um dos achados mais interessantes surgiu quando os pesquisadores reduziram quimicamente essa atividade metabólica. Nessa situação, houve melhora no desempenho cognitivo dos animais.

Além disso, análises de tecido cerebral humano mostraram níveis significativamente mais elevados de proteínas modificadas por açúcares em indivíduos com Alzheimer quando comparados a cérebros sem a doença.

O que essa descoberta significa na prática?

É importante destacar que o estudo identificou uma associação, não uma relação direta de causa e efeito.

Portanto, ninguém deve interromper tratamentos ou suplementos por conta própria com base apenas nesses resultados.

Ainda assim, a pesquisa chama atenção para um aspecto cada vez mais valorizado pela ciência: o papel do metabolismo cerebral na progressão de doenças neurodegenerativas.

Durante muitos anos, as pesquisas sobre Alzheimer concentraram esforços principalmente nas placas de beta-amiloide e nos emaranhados de tau. Agora, novas evidências sugerem que alterações metabólicas também podem desempenhar papel relevante na evolução da doença.

A descoberta abre caminho para futuras investigações sobre como nutrientes, suplementos e processos bioquímicos influenciam a saúde cerebral ao longo do envelhecimento. Em um cenário onde os casos de Alzheimer continuam crescendo em todo o mundo, compreender esses mecanismos pode representar uma nova fronteira na busca por estratégias de prevenção e tratamento.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn