Muitos tutores acreditam que a redução das brincadeiras, os movimentos mais lentos ou a relutância em saltar fazem parte do envelhecimento natural dos gatos. No entanto, em diversos casos, esses comportamentos escondem algo diferente: dor crônica.
Os felinos são especialistas em mascarar desconfortos. Essa habilidade evolutiva ajudou seus ancestrais a evitar predadores, mas hoje pode dificultar a identificação de problemas de saúde. Felizmente, a ciência desenvolveu ferramentas que ajudam veterinários e tutores a interpretar sinais muitas vezes ignorados.
Entre elas está a Feline Grimace Scale (FGS), uma escala científica baseada na observação das expressões faciais dos gatos.
O mistério por trás do gato silencioso
Ao contrário dos cães, gatos raramente demonstram dor de maneira evidente. Em vez disso, apresentam alterações discretas na postura, nos hábitos e na expressão facial. Muitas vezes, os primeiros sinais incluem:
- Menor disposição para subir em móveis
- Diminuição das brincadeiras
- Mudanças no comportamento social
- Cauda mantida próxima ao corpo
- Orelhas mais achatadas ou voltadas para trás
Essas mudanças podem surgir em doenças como osteoartrite, problemas dentários e inflamações crônicas.
Por isso, interpretar corretamente esses sinais pode fazer grande diferença no diagnóstico precoce.
O rosto do gato pode revelar mais do que parece
A Feline Grimace Scale foi desenvolvida para avaliar dor por meio da observação de cinco características faciais principais:
- Posição das orelhas
- Abertura dos olhos
- Tensão do focinho
- Posição dos bigodes
- Posição da cabeça
Quando um gato sente dor, as orelhas tendem a ficar mais afastadas ou voltadas para os lados. Os olhos podem parecer semicerrados, enquanto os bigodes ficam projetados para frente ou rígidos.
A escala foi originalmente validada em um estudo publicado na revista Scientific Reports, em dezembro de 2019, liderado por Marina C. Evangelista, tornando-se uma das ferramentas mais importantes para avaliação de dor felina.
O que as pesquisas mais recentes descobriram
O interesse científico pelo tema continua crescendo. Em setembro de 2025, um estudo publicado na revista The Veterinary Journal, liderado por Paulo V. Steagall, analisou a estrutura e a precisão da Feline Grimace Scale.
Os pesquisadores confirmaram que gatos com dor apresentam pontuações significativamente maiores na escala quando comparados a animais sem desconforto. O trabalho também identificou quais características faciais possuem maior valor diagnóstico durante a avaliação clínica.
Esses resultados ajudam a tornar a ferramenta ainda mais confiável para uso veterinário.
A cauda também conta uma história importante
Embora a Feline Grimace Scale seja baseada principalmente no rosto, a observação corporal complementa a análise. Um gato com dor frequentemente apresenta:
- Cauda imóvel ou mantida rente ao corpo
- Postura mais encolhida
- Menor frequência de alongamentos
- Movimentos cautelosos ao caminhar
Esses sinais, quando associados às alterações faciais, podem indicar que o problema vai além do simples envelhecimento.
Quando procurar ajuda veterinária
Nenhum sinal isolado confirma dor. Entretanto, a combinação de mudanças na expressão facial, comportamento e postura merece atenção.
Se o seu gato passou a evitar saltos, dormir mais do que o habitual ou apresentar alterações persistentes nas orelhas, olhos e posição da cauda, uma avaliação veterinária é recomendada.
A boa notícia é que muitas causas de dor crônica possuem tratamento. Quanto mais cedo o problema for identificado, maiores são as chances de melhorar a qualidade de vida do animal.
Afinal, os gatos raramente demonstram sofrimento de forma explícita. Muitas vezes, os sinais mais importantes estão escondidos justamente nos pequenos detalhes que passam despercebidos no dia a dia.

