Rios estão aquecendo, perdendo oxigênio e agravando a crise climática 

Rios aquecidos estão liberando mais gases de efeito estufa no planeta. (Imagem: Getty Images via Canva)

Quando se fala em gases de efeito estufa, a maioria das pessoas pensa em indústrias, carros e queimadas. No entanto, um novo estudo mostra que os próprios rios também estão se tornando fontes importantes de emissões climáticas e esse problema passou despercebido por décadas.

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT), na Alemanha, descobriram que rios ao redor do planeta estão aquecendo, perdendo oxigênio e liberando quantidades crescentes de dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O). O trabalho foi publicado na revista Global Change Biology e revela um impacto climático muito maior do que se imaginava.

Além de abastecer populações e sustentar ecossistemas, os rios também influenciam diretamente o equilíbrio climático global. Para entender esse fenômeno, os cientistas analisaram mais de duas décadas de dados, entre 2002 e 2022, combinando medições em campo, imagens de satélite e modelos de aprendizado de máquina. Os principais resultados foram:

  • Aumento contínuo da temperatura da água;
  • Queda acelerada nos níveis de oxigênio;
  • Maior acúmulo de gases de efeito estufa;
  • Forte influência da agricultura e urbanização;
  • Emissões extras não incluídas nos cálculos climáticos globais.

Segundo os pesquisadores, os rios emitiram cerca de 1,5 bilhão de toneladas métricas de CO₂ equivalente adicionais nesse período.

O que está fazendo os rios mudarem?

O problema começa com o excesso de nutrientes e matéria orgânica que chegam aos rios vindos da agricultura intensiva, fertilizantes e despejo de esgoto.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

Esses materiais alimentam microrganismos que realizam processos de decomposição. Durante essa atividade biológica, são liberados gases como CO₂, metano e óxido nitroso, todos com forte impacto sobre o aquecimento global.

Menos oxigênio e mais metano transformam rios em ameaça climática. (Imagem: Getty Images via Canva)

Ao mesmo tempo, o aumento da temperatura da água acelera ainda mais esses processos, criando um ciclo perigoso de intensificação. Quanto mais quente o rio, maior a atividade microbiana e maior a emissão de gases.

A perda de oxigênio também preocupa

Outro dado alarmante foi a rápida desoxigenação fluvial. Em média, os rios estão perdendo cerca de 0,058 miligramas de oxigênio por litro por década, uma taxa superior à observada em lagos e oceanos.

Menos oxigênio significa maior estresse para peixes, plantas aquáticas e toda a biodiversidade local.

Além disso, ambientes com pouco oxigênio favorecem a produção de metano, um gás com potencial de aquecimento muito superior ao do CO₂ em curto prazo. Ou seja, o problema ambiental e climático acontece ao mesmo tempo.

Agricultura e urbanização criam pontos críticos

As mudanças mais intensas foram observadas em regiões com forte expansão agrícola e crescimento urbano. Nesses locais, o aumento da temperatura da água se soma à entrada excessiva de nutrientes e carbono orgânico, formando verdadeiros pontos críticos de emissão.

Esse efeito mostra que o uso do solo influencia diretamente o comportamento climático dos rios. Proteger matas ciliares, controlar o despejo de resíduos e reduzir a poluição hídrica passam a ser estratégias também de combate às mudanças climáticas.

Cuidar dos rios também é proteger o clima

Durante muito tempo, os rios foram vistos apenas como vítimas da degradação ambiental. Agora, a ciência mostra que eles também podem se tornar agentes ativos no aquecimento global. A boa notícia é que esse processo pode ser reduzido com gestão adequada e proteção ambiental.

Reduzir a entrada de poluentes, melhorar o saneamento e controlar o uso da terra são ações que ajudam não apenas a saúde dos ecossistemas, mas também o equilíbrio climático do planeta. Proteger os rios deixou de ser apenas uma questão ambiental, tornou-se uma estratégia direta de defesa do clima global.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes