Astrônomos descobrem fusão rara entre buraco negro e estrela de nêutrons

Buraco negro e estrela de nêutrons colidem em órbita oval rara (Imagem: Geraint Pratten, Pesquisador Universitário da Royal Society, Universidade de Birmingham)
Buraco negro e estrela de nêutrons colidem em órbita oval rara (Imagem: Geraint Pratten, Pesquisador Universitário da Royal Society, Universidade de Birmingham)

O Universo continua revelando fenômenos que desafiam previsões da astrofísica moderna. Cientistas identificaram uma colisão entre um buraco negro e uma estrela de nêutrons que ocorreu de forma inesperada: os dois objetos extremos se aproximaram seguindo uma órbita oval, em vez do movimento circular que os modelos teóricos costumavam prever.

A descoberta foi possível graças à análise de um sinal de ondas gravitacionais, registrado no evento conhecido como GW200105. Esse tipo de onda é gerado quando objetos extremamente massivos aceleram ou colidem, deformando o próprio tecido do espaço-tempo. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Birmingham, da Universidade Autônoma de Madri e do Instituto Max Planck de Física Gravitacional, sendo publicado na revista científica The Astrophysical Journal Letters. Para compreender a importância da descoberta, alguns pontos se destacam:

  • O sistema era formado por um buraco negro e uma estrela de nêutrons;
  • Os objetos se moviam em uma órbita excêntrica (oval) antes da fusão;
  • O evento foi detectado por observatórios de ondas gravitacionais;
  • A colisão resultou em um buraco negro cerca de 13 vezes mais massivo que o Sol.

Esse comportamento orbital incomum fornece pistas valiosas sobre como esses sistemas se formam no cosmos.

Quando a órbita revela a história de um sistema estelar

Normalmente, os modelos teóricos indicam que pares formados por buracos negros e estrelas de nêutrons passam milhões de anos orbitando um ao outro. Durante esse processo, a emissão contínua de ondas gravitacionais tende a circularizar a trajetória dos objetos, fazendo com que a órbita se torne quase perfeitamente redonda antes da fusão final.

Entretanto, a análise do evento GW200105 revelou algo diferente. Pouco antes da colisão, os dois corpos ainda seguiam uma trajetória oval pronunciada, indicando que o sistema não evoluiu de maneira isolada e tranquila.

Essa característica sugere que o par pode ter surgido em um ambiente estelar turbulento, onde múltiplas interações gravitacionais entre estrelas e objetos compactos alteram constantemente as órbitas.

O papel das ondas gravitacionais na descoberta

Para investigar o evento em detalhes, os cientistas analisaram dados coletados pelos detectores LIGO e Virgo, dois dos principais observatórios dedicados à detecção de ondas gravitacionais. Utilizando modelos matemáticos mais avançados, os pesquisadores conseguiram medir com precisão a excentricidade orbital do sistema.

Além disso, a equipe aplicou métodos estatísticos que compararam milhares de simulações teóricas com o sinal real detectado. Os resultados indicaram que a hipótese de uma órbita circular é extremamente improvável, sendo descartada com alto grau de confiança.

Curiosamente, estudos anteriores haviam assumido que a órbita era circular. Essa suposição acabou levando a estimativas incorretas para a massa dos objetos envolvidos.

Um novo olhar sobre as colisões mais poderosas do Universo

A descoberta reforça a ideia de que fusões entre objetos compactos podem surgir por múltiplos caminhos evolutivos. Em vez de um único cenário dominante, diferentes ambientes cósmicos podem gerar sistemas com características distintas. Entre os locais mais prováveis para a formação de sistemas excêntricos estão:

  • Aglomerados estelares densos;
  • Regiões com interações gravitacionais frequentes;
  • Sistemas com múltiplos corpos celestes influenciando a órbita.

Esses ambientes podem produzir trajetórias mais caóticas e, consequentemente, fusões com órbitas excêntricas.

O Universo pode esconder muitos sistemas semelhantes

À medida que os detectores de ondas gravitacionais se tornam mais sensíveis, os astrônomos esperam registrar um número crescente de colisões cósmicas. Cada novo evento fornece pistas sobre a origem e evolução dos objetos mais extremos do cosmos.

Nesse contexto, a análise do evento GW200105 indica que a diversidade desses sistemas pode ser maior do que se imaginava. Assim, colisões envolvendo buracos negros e estrelas de nêutrons podem ocorrer de maneiras muito mais variadas, revelando um panorama cada vez mais complexo da dinâmica do Universo.

*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ).

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes