A depressão é frequentemente associada a alterações químicas no cérebro. No entanto, novas pesquisas indicam que o problema pode começar ainda mais profundamente no organismo, envolvendo a forma como as células produzem energia.
Um estudo recente revelou que pessoas com transtorno depressivo maior apresentam alterações no metabolismo energético celular. Essas mudanças podem ocorrer tanto no cérebro quanto nas células sanguíneas, sugerindo que a doença pode estar ligada a um desequilíbrio biológico mais amplo.
A descoberta abre caminho para novas estratégias de diagnóstico precoce e tratamentos mais direcionados, especialmente em jovens que estão nos estágios iniciais da doença.
Energia celular e saúde mental
Todas as células do corpo dependem de uma molécula chamada adenosina trifosfato (ATP) para funcionar. Conhecida como a principal fonte de energia celular, ela alimenta praticamente todas as atividades biológicas, desde processos metabólicos até o funcionamento dos neurônios.
No cérebro, essa energia é essencial para tarefas como:
• comunicação entre neurônios
• processamento de informações
• regulação das emoções
• manutenção das funções cognitivas
Quando esse sistema energético não funciona corretamente, diferentes processos cerebrais podem ser afetados. Como consequência, sintomas como fadiga intensa, dificuldade de concentração e baixa motivação podem surgir.
Investigação analisou cérebro e sangue de jovens
Para entender melhor essa relação, pesquisadores analisaram dados de jovens adultos diagnosticados com transtorno depressivo maior. A investigação incluiu exames cerebrais e análises de amostras de sangue de participantes entre 18 e 25 anos.
Esses dados foram comparados com informações obtidas de indivíduos da mesma faixa etária que não apresentavam depressão.
O objetivo foi identificar possíveis diferenças na produção e no uso de ATP, que poderiam indicar alterações no metabolismo energético associadas à doença.
Um padrão energético inesperado
Os resultados mostraram um comportamento surpreendente nas células dos participantes com depressão.
Em estado de repouso, as células apresentavam níveis relativamente elevados de moléculas energéticas. No entanto, quando submetidas a situações que exigiam maior demanda metabólica, elas demonstravam dificuldade em aumentar a produção de energia.
Esse padrão sugere que as células podem estar operando em um nível elevado de atividade desde o início da doença, o que poderia comprometer sua capacidade de responder adequadamente a desafios metabólicos.
Uma possível explicação envolve as mitocôndrias, estruturas celulares responsáveis pela produção de energia. Alterações na eficiência dessas organelas podem reduzir a capacidade das células de atender a picos de demanda energética.
Essa limitação pode contribuir para sintomas comuns da depressão, como:
• sensação persistente de cansaço
• lentidão no raciocínio
• diminuição da motivação
• dificuldade de concentração
Implicações para diagnóstico e tratamento
Além de aprofundar a compreensão biológica da depressão, os resultados sugerem novas possibilidades para a medicina.
Se alterações no metabolismo energético forem confirmadas como marcadores biológicos da doença, exames capazes de medir essas mudanças poderão ajudar no diagnóstico precoce.
Isso é particularmente importante porque muitos pacientes levam anos para encontrar um tratamento eficaz.
Outro ponto relevante é que a descoberta reforça a ideia de que a depressão não é uma condição única e uniforme. Diferentes pacientes podem apresentar mecanismos biológicos distintos, o que reforça a importância de abordagens terapêuticas personalizadas.
Uma nova perspectiva sobre a depressão
A pesquisa também contribui para ampliar a compreensão pública sobre a doença. Ao demonstrar que a depressão envolve alterações mensuráveis em processos biológicos fundamentais, o estudo ajuda a reduzir estigmas associados aos transtornos mentais.
Essas descobertas indicam que a condição pode estar ligada a mudanças no funcionamento energético das células, afetando simultaneamente o cérebro e outros sistemas do organismo.
Os resultados foram publicados na revista científica Translational Psychiatry em 2026, reforçando a importância de investigar o metabolismo celular como um possível componente central da depressão.
*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Rafaela Lucena, Farmacêutica (CRF-RJ: 13912).

