Nova simulação revela estrutura colossal de matéria escura ao redor da Via Láctea

Estrutura cósmica pode explicar movimento das galáxias próximas (Imagem: TrueCreatives via Canva)
Estrutura cósmica pode explicar movimento das galáxias próximas (Imagem: TrueCreatives via Canva)

A região do universo onde a Via Láctea está localizada pode ser muito mais complexa do que os mapas cósmicos sugeriam até agora. Um novo estudo indica que nossa galáxia está inserida em uma vasta estrutura plana de matéria, capaz de influenciar diretamente o movimento das galáxias próximas. Essa configuração poderia explicar um fenômeno que há décadas intriga os astrônomos: por que muitas galáxias vizinhas parecem se afastar da nossa, mesmo estando relativamente próximas.

A pesquisa, liderada por cientistas da Universidade de Groningen e publicada na revista científica Nature Astronomy, utilizou simulações cosmológicas avançadas para reconstruir o ambiente ao redor do chamado Grupo Local, o conjunto de galáxias que inclui a Via Láctea, a galáxia de Andrômeda e dezenas de sistemas menores. Para entender o problema, é importante considerar alguns pontos fundamentais sobre nossa vizinhança cósmica:

  • O Grupo Local reúne mais de cinquenta galáxias;
  • A galáxia de Andrômeda está se aproximando da Via Láctea;
  • Diversas outras galáxias próximas parecem se afastar;
  • A maior parte da massa do universo é composta por matéria escura, invisível aos instrumentos.

Esse comportamento aparentemente contraditório sempre representou um desafio para os modelos tradicionais de evolução do universo.

Um plano cósmico que reorganiza a gravidade

As simulações revelaram que a matéria ao redor do Grupo Local pode estar distribuída em uma extensa estrutura achatada, que se estende por dezenas de milhões de anos-luz. Essa espécie de “camada cósmica” contém tanto matéria comum quanto grandes quantidades de matéria escura, responsável pela maior parte da massa gravitacional do universo.

Ao mesmo tempo, regiões acima e abaixo desse plano apresentam enormes vazios cósmicos, áreas do espaço com pouquíssimas galáxias. Essa configuração cria um equilíbrio gravitacional particular.

Como consequência, a atração exercida pela Via Láctea e por Andrômeda é parcialmente compensada pela massa distribuída ao longo desse plano. Dessa forma, muitas galáxias localizadas nessa estrutura acabam se afastando em vez de cair em direção ao centro do Grupo Local.

Simulações criam um “gêmeo digital” do Grupo Local

Mapa mostra densidade de galáxias ao redor da Via Láctea em 3D (Imagem: Wempe, E., White, S.D.M., Helmi, A. et al./Nat Astron (2026)/CC BY-SA 4.0)
Mapa mostra densidade de galáxias ao redor da Via Láctea em 3D (Imagem: Wempe, E., White, S.D.M., Helmi, A. et al./Nat Astron (2026)/CC BY-SA 4.0)

Para investigar essa hipótese, os pesquisadores construíram um modelo extremamente detalhado do universo próximo. O processo começou com medições da radiação cósmica de fundo em micro-ondas, um vestígio do Big Bang que revela como a matéria estava distribuída no início da história cósmica.

Com esses dados iniciais, supercomputadores simularam bilhões de anos de evolução do universo. O resultado foi um modelo que reproduziu com grande fidelidade:

  • As massas das galáxias principais;
  • Suas posições no espaço;
  • As velocidades observadas das galáxias vizinhas.

No total, o modelo replicou o comportamento de 31 galáxias localizadas fora do Grupo Local, além das dinâmicas da Via Láctea e de Andrômeda.

Uma peça importante na arquitetura do universo

O estudo representa um passo importante para compreender a distribuição da matéria escura ao redor da nossa galáxia. Além disso, ajuda a esclarecer um problema que há décadas desafia a cosmologia observacional.

Esses resultados também reforçam a ideia de que o universo é organizado em uma vasta rede de estruturas cósmicas, formada por filamentos, paredes de galáxias e grandes vazios.Assim, a nova simulação sugere que o ambiente ao redor da Via Láctea faz parte de uma estrutura cósmica muito maior, cuja influência gravitacional pode determinar como as galáxias se movem em nossa região do universo.

Escrito por Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ) para o Fala Ciência.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes