A atmosfera de Urano acaba de ganhar o retrato mais detalhado já obtido. Utilizando o instrumento NIRSpec do James Webb Space Telescope, uma equipe internacional conseguiu mapear, pela primeira vez, a estrutura vertical da alta atmosfera do gigante de gelo. O estudo, liderado por Paola I. Tiranti e publicado na revista Geophysical Research Letters, aprofunda a compreensão sobre como energia e partículas carregadas circulam acima das nuvens do planeta.
As observações acompanharam quase uma rotação completa de Urano, permitindo analisar como temperatura e densidade iônica variam com a altitude. Entre os principais achados:
- Temperaturas máximas entre 3.000 e 4.000 km acima das nuvens;
- Pico de densidade de íons próximo a 1.000 km;
- Presença de duas faixas aurorais brilhantes nos polos magnéticos.
Uma ionosfera moldada por um campo magnético incomum
A região estudada, conhecida como ionosfera, estende-se até cerca de 5.000 quilômetros acima do topo das nuvens. Nessa camada, partículas são ionizadas e interagem intensamente com o campo magnético do planeta, um dos mais peculiares do Sistema Solar.
Diferentemente da maioria dos planetas, o campo magnético de Urano é fortemente inclinado e deslocado em relação ao seu eixo de rotação. Como resultado, as auroras não se comportam de maneira simétrica. O Webb detectou duas faixas luminosas próximas aos polos magnéticos, além de regiões com redução significativa na emissão e na densidade iônica, provavelmente associadas a transições nas linhas do campo magnético.
Esse padrão lembra fenômenos observados em Júpiter, onde a geometria magnética também influencia o deslocamento de partículas energéticas na atmosfera superior.
Evidências de um planeta que continua esfriando
Outro dado relevante é a confirmação de que a atmosfera superior de Urano segue em processo de resfriamento, tendência observada desde a década de 1990. A temperatura média registrada foi de aproximadamente 426 kelvins (cerca de 150 °C), valor inferior a medições anteriores feitas por telescópios terrestres e sondas espaciais.
Esse resfriamento tem implicações importantes para o entendimento do balanço energético dos gigantes de gelo. Além disso, ajuda a refinar modelos que explicam como esses planetas distribuem calor em suas camadas superiores.Ao revelar a estrutura tridimensional da atmosfera de Urano com alta precisão, o Webb não apenas amplia o conhecimento sobre o próprio planeta, mas também fornece pistas valiosas para interpretar exoplanetas gigantes semelhantes espalhados pela galáxia.

