Vírus isolado de esgoto chama atenção por combater bactéria encontrada em alimentos

Pesquisa identificou E. coli em amostras de carnes cruas. (Imagem: ArtemSH)

Um vírus encontrado em águas residuais (esgoto) chamou a atenção de pesquisadores por sua capacidade de atacar uma bactéria associada a infecções alimentares. Trata-se de um bacteriófago, um tipo de vírus que infecta bactérias e pode destruí-las durante seu ciclo de reprodução.

O microrganismo foi testado contra amostras de Escherichia coli (E. coli) isoladas de carnes cruas. Os resultados chamaram a atenção porque parte das bactérias apresentava resistência a diferentes antibióticos, uma característica que dificulta o controle de contaminações e pode representar um problema para a saúde pública.

A descoberta abre uma possibilidade interessante para a segurança dos alimentos: utilizar vírus específicos para combater bactérias potencialmente perigosas antes que elas cheguem ao consumidor.

Vírus ataca bactéria encontrada em carnes cruas

Como os bacteriófagos destroem bactérias em carnes cruas. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Os bacteriófagos, também conhecidos simplesmente como fagos, são vírus que utilizam as células bacterianas para se multiplicar. Diferentemente dos vírus que infectam seres humanos, eles apresentam especificidade por determinados grupos ou espécies de bactérias.

No estudo, os pesquisadores isolaram um bacteriófago lítico em águas residuais e investigaram sua capacidade de combater diferentes amostras de E. coli provenientes de carnes cruas.

O termo lítico é importante porque indica que o vírus consegue invadir a bactéria, utilizar sua estrutura para produzir novas partículas virais e provocar a ruptura da célula. Com isso, as bactérias infectadas são destruídas.

Essa característica torna os bacteriófagos interessantes para pesquisas sobre novas estratégias de controle microbiológico, especialmente diante do aumento da resistência bacteriana aos medicamentos.

Mais de 60% das amostras de carne apresentaram E. coli

Para investigar o problema, os cientistas coletaram 60 amostras de carne crua em açougues da província de Zanjan, no Irã.

As análises identificaram a presença de Escherichia coli em 37 amostras, o equivalente a 61,7% do total.

Outro resultado preocupante foi a resistência aos antibióticos. Entre as bactérias isoladas, foram observadas taxas elevadas de resistência a:

  • Tetraciclina: 59,5%.
  • Trimetoprima-sulfametoxazol: 57%.
  • Amoxicilina: 57%.

Os pesquisadores também investigaram genes associados à produção de beta-lactamases, enzimas que podem inativar determinados antibióticos da família dos betalactâmicos.

O gene blaTEM foi o mais frequentemente identificado, presente em 27% dos isolados. Também foram encontrados os genes blaCTX-M e blaSHV.

Esses resultados mostram que a contaminação por E. coli em alimentos pode envolver bactérias com mecanismos de resistência antimicrobiana.

Bacteriófago conseguiu eliminar mais da metade das bactérias testadas

Publicado em 3 de novembro de 2026, na revista científica Scientific Reports, o estudo teve como autores principais Narges Asadi, Hessam Mirshahabi e Davoud Afshar.

Os pesquisadores caracterizaram o bacteriófago isolado e observaram que ele apresentava uma estrutura formada por uma cabeça de formato icosaédrico e uma cauda curta, sem capacidade de contração.

Um dos resultados mais relevantes foi sua atividade contra os isolados de E. coli: o vírus conseguiu apresentar efeito lítico contra 54,1% das bactérias testadas.

Além disso, os experimentos mostraram que o bacteriófago manteve sua atividade em temperaturas entre -20 °C e 55 °C. Entretanto, foi completamente inativado quando exposto a 65 °C.

A estabilidade em diferentes temperaturas é uma característica interessante para futuras investigações sobre sua utilização em ambientes relacionados à produção e ao armazenamento de alimentos.

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Descoberta pode abrir caminho para novas estratégias de segurança alimentar

A possibilidade de utilizar bacteriófagos no controle de bactérias contaminantes é conhecida como biocontrole por fagos.

A estratégia consiste em empregar vírus específicos para atingir determinadas bactérias, reduzindo sua presença sem necessariamente afetar outros microrganismos.

No caso da pesquisa, o resultado é especialmente interessante porque o bacteriófago apresentou atividade contra isolados de E. coli que incluíam bactérias resistentes a antibióticos.

Entretanto, existe uma diferença importante entre eliminar bactérias em condições experimentais e conseguir aplicar a tecnologia diretamente nos alimentos.

Os próprios pesquisadores destacam a necessidade de novos estudos em matrizes alimentares, como carnes, para verificar se o vírus mantém sua eficácia diante das características reais desses produtos.

Portanto, o bacteriófago ainda não representa um método comprovado para descontaminar carnes comercializadas.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo, em hipótese alguma, a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde qualificado.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn