Uma vacina universal em spray nasal capaz de proteger contra COVID 19, gripe, pneumonia bacteriana e até alergias sazonais pode deixar de ser ficção científica. Pesquisadores da Stanford Medicine desenvolveram uma formulação experimental que, em modelos animais, induziu proteção ampla e duradoura nos pulmões.
O estudo foi publicado na revista Science com o título Mucosal vaccination in mice provides protection from diverse respiratory threats, liderado por Haibo Zhang em 2026 (DOI: 10.1126/science.aea1260). Os resultados indicam que a estratégia pode representar um novo paradigma em imunização respiratória.
Por que precisamos atualizar vacinas todos os anos?
As vacinas tradicionais seguem o princípio da especificidade antigênica, apresentando ao sistema imunológico fragmentos reconhecíveis de vírus ou bactérias. O problema é que muitos patógenos sofrem mutações frequentes. Quando isso ocorre, os anticorpos gerados anteriormente podem perder eficiência, exigindo reforços anuais, como acontece com a gripe e com variantes do SARS CoV 2.
A nova abordagem rompe com esse modelo clássico. Em vez de focar apenas em um antígeno específico, ela estimula de forma integrada dois braços do sistema imune:
• Imunidade inata, resposta rápida e ampla
• Imunidade adaptativa, responsável por anticorpos e memória imunológica
Ativando as defesas naturais dos pulmões
A formulação experimental combina estímulos direcionados aos receptores Toll like, que ativam células da imunidade inata, com um antígeno inofensivo chamado ovalbumina. Esse componente auxilia no recrutamento de células T para o tecido pulmonar, mantendo o sistema imune em estado de prontidão por semanas ou meses.
Nos experimentos, camundongos receberam a vacina por via intranasal. Após três doses, os animais demonstraram proteção por pelo menos três meses contra:
• SARS CoV 2 e outros coronavírus
• Staphylococcus aureus
• Acinetobacter baumannii
• Proteínas de ácaros da poeira doméstica
Os resultados mostraram redução expressiva da carga viral nos pulmões e sobrevivência total dos animais vacinados. Além disso, a resposta adaptativa foi ativada em apenas três dias, um intervalo significativamente menor do que o observado em animais não imunizados.
Proteção além dos vírus
Um dos achados mais relevantes foi a capacidade da vacina de reduzir inflamação alérgica. Em modelos expostos a alérgenos comuns, os animais imunizados apresentaram menor resposta do tipo Th2 e menos acúmulo de muco nas vias aéreas.
Isso sugere que a estratégia pode modular o ambiente imunológico pulmonar de forma ampla, oferecendo não apenas proteção contra infecções, mas também contra reações alérgicas respiratórias.
O caminho até humanos
Embora os dados sejam promissores, os testes ainda foram realizados apenas em camundongos. O próximo passo envolve ensaios clínicos de Fase I para avaliar segurança em humanos. Caso os resultados sejam confirmados, uma vacina intranasal universal poderá reduzir a necessidade de múltiplas campanhas sazonais e fortalecer a preparação contra futuras pandemias.
Do ponto de vista científico, o estudo demonstra que é possível criar uma vacina mucosa com ativação coordenada da imunidade inata e adaptativa, ampliando o espectro de proteção. Se validada em humanos, essa inovação poderá transformar a prevenção de doenças respiratórias, simplificando esquemas vacinais e ampliando a defesa coletiva contra ameaças emergentes.

