Cientistas desenvolvem nova técnica para preservar cabelos e combater calvície

Legenda: Pesquisas buscam preservar folículos capilares para facilitar testes de novos tratamentos contra a calvície (Imagem: Getty images)

Preservar fios de cabelo fora do corpo humano sem perder sua capacidade de crescimento parece um desafio incomum. Entretanto, pesquisadores estão avançando nessa possibilidade por meio de uma técnica conhecida como criopreservação, que utiliza temperaturas extremamente baixas para conservar materiais biológicos.

Um estudo recente demonstrou que folículos capilares humanos podem ser armazenados em condições de congelamento e posteriormente utilizados em experimentos laboratoriais. A descoberta pode facilitar pesquisas sobre crescimento capilar, desenvolvimento de medicamentos e mecanismos biológicos relacionados à queda de cabelo.

O resultado mais interessante foi obtido com a vitrificação, um método que preservou melhor as estruturas dos folículos do que o congelamento convencional.

Como congelar um folículo sem destruir suas células?

O folículo piloso é uma estrutura localizada na pele responsável pela formação e pelo crescimento dos fios. Ele contém diferentes tipos celulares organizados em uma estrutura complexa, incluindo células envolvidas na produção da haste capilar e na regulação do ciclo de crescimento.

Por isso, preservar um folículo não significa simplesmente congelar um fio de cabelo. É necessário conservar a viabilidade das células e as interações entre os diferentes componentes dessa estrutura.

A criopreservação busca justamente evitar danos provocados pelo armazenamento em temperaturas muito baixas. Entretanto, durante o congelamento, a formação de cristais de gelo pode comprometer as membranas celulares e outras estruturas internas.

Para contornar esse problema, existem diferentes estratégias, incluindo o congelamento lento e a vitrificação.

Vitrificação apresentou resultados melhores que o congelamento lento

Técnicas de criopreservação facilitam testes de medicamentos para calvície e queda de cabelo (Imagem: Getty images)

A pesquisa, liderada por Sayuri Hamano e publicada em 3 de novembro de 2026, investigou duas estratégias para preservar folículos capilares humanos antes de submetê-los à cultura de órgãos.

No congelamento lento, as amostras foram resfriadas gradualmente, utilizando dimetilsulfóxido (DMSO) como agente crioprotetor.

Já a vitrificação utilizou uma combinação de DMSO e etilenoglicol, seguida de resfriamento rápido em nitrogênio líquido. O objetivo é evitar a formação de cristais de gelo, permitindo que a solução alcance um estado semelhante ao de um sólido vítreo.

Os resultados mostraram diferenças importantes entre os métodos. O congelamento lento provocou danos celulares intensos e comprometeu o crescimento posterior dos fios.

Em contrapartida, a vitrificação apresentou menor perda de células e permitiu que os folículos recuperassem aproximadamente 75% do alongamento da haste capilar observado em amostras frescas.

O que acontece com o ciclo de crescimento do cabelo?

Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores identificaram uma alteração importante: a vitrificação favoreceu a passagem dos folículos da fase anágena para a fase catágena.

Essas etapas fazem parte do ciclo natural do cabelo.

A fase anágena corresponde ao período de crescimento ativo, quando as células do folículo trabalham intensamente na produção da haste capilar.

A fase catágena, por sua vez, representa uma etapa de transição, na qual o crescimento diminui e a estrutura começa a passar por mudanças que antecedem o repouso.

Essa alteração é relevante porque a antecipação da fase catágena pode estar associada a processos de queda capilar, dependendo do contexto biológico.

Entretanto, o estudo também identificou que o tratamento com minoxidil durante a cultura dos folículos conseguiu reduzir parcialmente essa transição.

Como essa descoberta pode ajudar na pesquisa contra a calvície?

A possibilidade de conservar folículos humanos por períodos prolongados pode facilitar diferentes tipos de investigação científica.

Entre as aplicações potenciais estão:

  • Testar medicamentos que estimulam o crescimento capilar.
  • Investigar mecanismos celulares associados à alopecia.
  • Comparar respostas dos folículos a diferentes substâncias.
  • Disponibilizar amostras biológicas para experimentos realizados em momentos distintos.

A cultura de órgãos permite manter estruturas biológicas fora do organismo, preservando parte de sua organização e funcionamento. Assim, os pesquisadores conseguem observar respostas celulares em condições laboratoriais controladas.

Embora a técnica ainda não represente um tratamento contra a calvície, ela pode se tornar uma ferramenta importante para acelerar pesquisas sobre a biologia dos cabelos e a avaliação de novos medicamentos.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo, em hipótese alguma, a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde qualificado.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes