Telescópio James Webb revela detalhes inéditos da atmosfera misteriosa de Urano

Duas auroras intensas surgiram próximas aos polos magnéticos de Urano, com menor densidade iônica intermediária (Imagem: ESA/Webb, NASA, CSA, STScI, P. Tiranti, H. Melin, M. Zamani)
Duas auroras intensas surgiram próximas aos polos magnéticos de Urano, com menor densidade iônica intermediária (Imagem: ESA/Webb, NASA, CSA, STScI, P. Tiranti, H. Melin, M. Zamani)

A atmosfera de Urano acaba de ganhar o retrato mais detalhado já obtido. Utilizando o instrumento NIRSpec do James Webb Space Telescope, uma equipe internacional conseguiu mapear, pela primeira vez, a estrutura vertical da alta atmosfera do gigante de gelo. O estudo, liderado por Paola I. Tiranti e publicado na revista Geophysical Research Letters, aprofunda a compreensão sobre como energia e partículas carregadas circulam acima das nuvens do planeta.

As observações acompanharam quase uma rotação completa de Urano, permitindo analisar como temperatura e densidade iônica variam com a altitude. Entre os principais achados:

  • Temperaturas máximas entre 3.000 e 4.000 km acima das nuvens;
  • Pico de densidade de íons próximo a 1.000 km;
  • Presença de duas faixas aurorais brilhantes nos polos magnéticos.

Uma ionosfera moldada por um campo magnético incomum

A região estudada, conhecida como ionosfera, estende-se até cerca de 5.000 quilômetros acima do topo das nuvens. Nessa camada, partículas são ionizadas e interagem intensamente com o campo magnético do planeta, um dos mais peculiares do Sistema Solar.

Diferentemente da maioria dos planetas, o campo magnético de Urano é fortemente inclinado e deslocado em relação ao seu eixo de rotação. Como resultado, as auroras não se comportam de maneira simétrica. O Webb detectou duas faixas luminosas próximas aos polos magnéticos, além de regiões com redução significativa na emissão e na densidade iônica, provavelmente associadas a transições nas linhas do campo magnético.

Esse padrão lembra fenômenos observados em Júpiter, onde a geometria magnética também influencia o deslocamento de partículas energéticas na atmosfera superior.

Evidências de um planeta que continua esfriando

Outro dado relevante é a confirmação de que a atmosfera superior de Urano segue em processo de resfriamento, tendência observada desde a década de 1990. A temperatura média registrada foi de aproximadamente 426 kelvins (cerca de 150 °C), valor inferior a medições anteriores feitas por telescópios terrestres e sondas espaciais.

Esse resfriamento tem implicações importantes para o entendimento do balanço energético dos gigantes de gelo. Além disso, ajuda a refinar modelos que explicam como esses planetas distribuem calor em suas camadas superiores.Ao revelar a estrutura tridimensional da atmosfera de Urano com alta precisão, o Webb não apenas amplia o conhecimento sobre o próprio planeta, mas também fornece pistas valiosas para interpretar exoplanetas gigantes semelhantes espalhados pela galáxia.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes