A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) costuma ser lembrada pela sensação de queimação no peito, pelo gosto ácido na boca ou pelo desconforto depois das refeições. Entretanto, o problema pode ser mais silencioso do que parece. Mesmo quando o esôfago não apresenta alterações evidentes a olho nu, seu tecido pode carregar pequenas diferenças microscópicas.
Um novo estudo analisou justamente esse detalhe. Os pesquisadores investigaram a histologia do esôfago inferior, região que recebe diretamente o impacto do conteúdo que retorna do estômago, comparando pessoas com diferentes manifestações de refluxo.
O que existe na parede do esôfago?
O esôfago é revestido internamente por um epitélio estratificado pavimentoso, tecido formado por várias camadas de células que ajudam a proteger o órgão contra agressões mecânicas e químicas.
Na parte inferior do esôfago existe ainda uma região importante chamada linha Z, que marca a transição entre o revestimento do esôfago e a mucosa do estômago. Foi nessa área que os pesquisadores encontraram algumas das diferenças mais interessantes.
O estudo, publicado em 9 de outubro de 2026 na revista científica Scandinavian Journal of Gastroenterology, teve como primeira autora Jennifer Drevin. A investigação avaliou 384 pessoas selecionadas da população geral, submetidas à endoscopia digestiva alta e à avaliação de sintomas.
Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!
Entrar no Canal do WhatsAppOs participantes foram classificados conforme apresentavam ou não DRGE, doença do refluxo não erosiva e esofagite, permitindo comparar alterações microscópicas em diferentes situações.
Uma diferença de poucos micrômetros chamou atenção
Na linha Z, o comprimento mediano das papilas da mucosa foi de aproximadamente 204,8 micrômetros. Porém, esse valor não foi igual em todos os grupos. Entre as pessoas sem DRGE, a medida mediana foi de 197,4 µm. Já nos participantes com esofagite assintomática chegou a 262,6 µm.
Nos grupos com doença do refluxo não erosiva e esofagite sintomática, os valores foram de 220,5 µm e 217,1 µm, respectivamente.
Essas estruturas microscópicas podem parecer insignificantes, mas ajudam a revelar como o tecido está organizado. Além disso, o estudo observou que papilas mais longas, uma camada basal mais espessa e um epitélio mais espesso logo acima da linha Z estavam associados a uma maior probabilidade de esofagite sintomática.
Nem todo refluxo deixa uma lesão evidente
Um dos pontos mais interessantes é que DRGE não significa necessariamente encontrar uma erosão visível durante a endoscopia.
Na chamada doença do refluxo não erosiva, a pessoa apresenta sintomas relacionados ao refluxo, mas não necessariamente possui as lesões características da esofagite erosiva. Mesmo assim, alterações microscópicas podem aparecer.
O estudo identificou, por exemplo, uma associação entre a presença de espongiose, uma alteração caracterizada pelo aumento dos espaços entre células do epitélio, e a doença do refluxo não erosiva. Quando essa alteração estava localizada entre 2 e 3 centímetros acima da linha Z, a probabilidade de DRGE não erosiva foi maior em comparação com pessoas sem DRGE. A análise estatística encontrou odds ratio de 5,51, com intervalo de confiança de 1,53 a 19,84.
O que essas alterações significam?
Os resultados não indicam que uma determinada alteração microscópica, isoladamente, seja suficiente para diagnosticar DRGE. Na verdade, o trabalho mostra algo mais sutil: o esôfago pode apresentar pequenas diferenças estruturais relacionadas ao refluxo e à esofagite.
Além disso, os pesquisadores destacam a importância de considerar possíveis fatores de confusão, especialmente porque algumas diferenças observadas entre os grupos diminuíram depois dos ajustes estatísticos.
Isso ajuda a explicar por que a relação entre sintomas, endoscopia e microscopia nem sempre é simples. Para a Biologia, o estudo também oferece um exemplo interessante de como uma doença pode modificar um tecido sem necessariamente produzir uma alteração dramática. Mudanças celulares e estruturais muito pequenas podem acompanhar processos que percebemos apenas como azia, queimação ou desconforto.
Os resultados ajudam, portanto, a caracterizar melhor a histologia normal do esôfago inferior e mostram que a DRGE pode estar associada a diferenças microscópicas discretas, especialmente quando existe esofagite.
