Teste genético pode ajudar a escolher o analgésico mais adequado para dor crônica

A dor crônica pode exigir avaliação individualizada do tratamento. (Imagem: Jannissimo)

Pessoas com dor crônica nem sempre conseguem alívio adequado com os medicamentos disponíveis. Em alguns casos, um analgésico funciona bem para determinado paciente, mas apresenta pouco efeito ou provoca mais efeitos adversos em outro. Uma das explicações pode estar na genética, que influencia a maneira como o organismo processa certos medicamentos.

Um estudo clínico recente investigou se um teste genético poderia ajudar a escolher opioides para tratar a dor crônica. A pesquisa avaliou o gene CYP2D6, envolvido no metabolismo de medicamentos como codeína, tramadol e hidrocodona.

Os resultados, porém, mostram que a farmacogenética ainda enfrenta desafios para transformar informações genéticas em melhorias concretas no tratamento.

Como os genes podem influenciar o efeito dos analgésicos?

O organismo utiliza enzimas para transformar e eliminar medicamentos. Uma delas é produzida a partir das instruções do gene CYP2D6, que apresenta variações entre as pessoas.

Essas diferenças genéticas podem fazer com que alguém metabolize determinados medicamentos mais lentamente ou mais rapidamente do que a média. Além disso, outros remédios podem bloquear a atividade dessa enzima e modificar a resposta ao tratamento.

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No caso da codeína e do tramadol, por exemplo, o CYP2D6 participa da formação de substâncias que contribuem para o efeito analgésico. Portanto, uma atividade enzimática muito baixa pode reduzir o efeito desses medicamentos em algumas pessoas. Já uma atividade muito elevada pode aumentar a formação de metabólitos ativos e elevar o risco de efeitos adversos.

A hidrocodona também é metabolizada pelo CYP2D6, embora sua resposta clínica envolva outros mecanismos. Por isso, a influência genética não é igual para todos os opioides.

Ensaio clínico testou a escolha do medicamento pelo DNA

Infográfico: como o DNA afeta a prescrição de remédios para dor.

Publicado online em 15 de outubro de 2026, na revista científica Clinical Pharmacology & Therapeutics, o estudo teve como primeiro autor Todd C. Skaar. A pesquisa foi um ensaio clínico randomizado, multicêntrico e pragmático, com 1.048 adultos que apresentavam dor crônica havia pelo menos três meses.

Os participantes foram divididos entre o tratamento habitual e uma estratégia que utilizava informações genéticas do CYP2D6 para orientar a prescrição de opioides.

Entre os participantes, 282 apresentavam resultados genéticos ou condições relacionadas a medicamentos que poderiam influenciar a escolha terapêutica. Nesse grupo, entretanto, a estratégia orientada pelo teste não produziu uma melhora significativa na intensidade da dor após três meses, quando comparada ao cuidado habitual.

Um ponto interessante apareceu em uma análise exploratória: os pacientes cujo tratamento foi efetivamente ajustado para corresponder ao perfil metabólico apresentaram melhora nos escores de dor. Esse resultado merece investigação adicional, mas não é suficiente, isoladamente, para comprovar que a estratégia funciona para todos os pacientes.

O trabalho também identificou uma dificuldade prática: as recomendações genéticas não levaram a mudanças de prescrição suficientes para demonstrar um benefício geral.

Teste genético já pode substituir a avaliação médica?

Apesar do potencial da farmacogenética, os resultados não indicam que todos os pacientes com dor crônica precisem realizar testes genéticos antes de receber um analgésico.

A escolha do tratamento também depende da causa da dor, de outros problemas de saúde, dos medicamentos utilizados, dos efeitos adversos e do histórico de resposta às terapias anteriores.

Além disso, os opioides exigem acompanhamento cuidadoso devido a riscos como sonolência, dependência, depressão respiratória e interações medicamentosas.

O teste genético pode fornecer informações adicionais em situações selecionadas, mas não substitui a avaliação clínica nem garante que um medicamento será eficaz.

Veja mais:

O futuro da farmacogenética no controle da dor

A farmacogenética busca tornar os tratamentos mais individualizados, considerando características biológicas que variam de uma pessoa para outra. No entanto, para que essa abordagem beneficie mais pacientes, não basta identificar diferenças no DNA: é necessário que os resultados orientem mudanças adequadas na prática clínica.

O estudo mostra justamente esse desafio. Embora o perfil genético possa ajudar a compreender a resposta a determinados opioides, incorporar recomendações aos sistemas de saúde não garantiu melhora geral da dor no período analisado.

Novas pesquisas poderão esclarecer quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiar dessa estratégia e como integrar os testes às decisões médicas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn