Pequena mudança na rotina pode reduzir em 43% o risco de depressão

Atividade física protege contra depressão. (Foto: Getty Images via Canva)
Atividade física protege contra depressão. (Foto: Getty Images via Canva)

Pequenas mudanças na rotina podem ter efeitos profundos na saúde mental. Um novo estudo científico indica que reduzir o tempo diário diante da televisão e substituí-lo por outras atividades pode diminuir significativamente o risco de desenvolver transtorno depressivo maior, especialmente na meia-idade.

A pesquisa foi publicada em 2025 na revista European Psychiatry, no artigo intitulado “Efeitos da substituição do tempo gasto assistindo à TV por atividades físicas ou sono na incidência de depressão maior. Resultados do estudo de coorte Lifelines” (DOI: 10.1192/j.eurpsy.2025.10045), liderado por Rosa Palazuelos-González.

Os resultados mostram que a simples realocação de 60 minutos diários de televisão para outras atividades reduziu em 11% a probabilidade de depressão grave. Quando a substituição chegou a 90 ou 120 minutos, a redução atingiu aproximadamente 26%.

A meia-idade apresenta os maiores benefícios

Embora os efeitos positivos tenham sido observados de forma geral, os ganhos foram mais expressivos entre adultos de meia-idade. Nesse grupo, substituir uma hora de televisão por outras atividades reduziu o risco de depressão em 18,78%. Com 90 minutos, a queda chegou a 29%, e ao trocar duas horas diárias, a redução alcançou impressionantes 43%.

Esses dados sugerem que a meia-idade pode ser um período particularmente sensível a mudanças comportamentais relacionadas ao estilo de vida sedentário.

O que substituir faz toda a diferença

Nem toda substituição gera o mesmo impacto. De modo geral, quase todas as atividades analisadas estiveram associadas a menor risco de depressão, com destaque para:

  • Esportes e exercícios físicos, que apresentaram a maior proteção
  • Atividade física no trabalho ou estudo
  • Deslocamento ativo, como caminhar ou pedalar
  • Sono adequado

Por outro lado, substituir apenas 30 minutos de televisão por tarefas domésticas não mostrou efeito significativo.

A prática esportiva se destacou consistentemente. Entre adultos mais velhos, por exemplo, foi a única atividade associada a redução mensurável no risco de depressão.

Diferenças entre faixas etárias

Os efeitos variaram conforme a idade. Entre idosos, a redistribuição do tempo de TV para atividades gerais não alterou significativamente os índices de depressão, exceto quando envolvia prática esportiva.

Já nos adultos mais jovens, a substituição por atividade física não demonstrou impacto relevante. Uma possível explicação é que esse grupo já apresenta níveis mais elevados de atividade física, ultrapassando o limiar necessário para proteção adicional contra depressão.

Como o estudo foi conduzido

Os resultados são baseados no estudo populacional holandês Lifelines, que acompanhou 65.454 adultos sem depressão inicial ao longo de quatro anos. A investigação foi conduzida por Rosa Palazuelos-González e colaboradores.

Os participantes relataram o tempo dedicado a:

  • Televisão
  • Exercícios e esportes
  • Atividade física ocupacional
  • Tarefas domésticas
  • Sono
  • Deslocamento ativo

Os diagnósticos de transtorno depressivo maior foram estabelecidos por meio da Mini Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional, garantindo rigor metodológico.

Importância da descoberta

Estratégias preventivas acessíveis e simples podem ter impacto coletivo significativo. Reduzir o tempo sedentário, especialmente diante da televisão, surge como uma intervenção prática e viável.

Além disso, a pesquisa reforça que não se trata apenas de eliminar um hábito, mas de substituí-lo por comportamentos protetores, principalmente atividade física estruturada.

Pequenas mudanças consistentes podem representar grandes ganhos para o cérebro.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn