Pequenas mudanças na rotina podem ter efeitos profundos na saúde mental. Um novo estudo científico indica que reduzir o tempo diário diante da televisão e substituí-lo por outras atividades pode diminuir significativamente o risco de desenvolver transtorno depressivo maior, especialmente na meia-idade.
A pesquisa foi publicada em 2025 na revista European Psychiatry, no artigo intitulado “Efeitos da substituição do tempo gasto assistindo à TV por atividades físicas ou sono na incidência de depressão maior. Resultados do estudo de coorte Lifelines” (DOI: 10.1192/j.eurpsy.2025.10045), liderado por Rosa Palazuelos-González.
Os resultados mostram que a simples realocação de 60 minutos diários de televisão para outras atividades reduziu em 11% a probabilidade de depressão grave. Quando a substituição chegou a 90 ou 120 minutos, a redução atingiu aproximadamente 26%.
A meia-idade apresenta os maiores benefícios
Embora os efeitos positivos tenham sido observados de forma geral, os ganhos foram mais expressivos entre adultos de meia-idade. Nesse grupo, substituir uma hora de televisão por outras atividades reduziu o risco de depressão em 18,78%. Com 90 minutos, a queda chegou a 29%, e ao trocar duas horas diárias, a redução alcançou impressionantes 43%.
Esses dados sugerem que a meia-idade pode ser um período particularmente sensível a mudanças comportamentais relacionadas ao estilo de vida sedentário.
O que substituir faz toda a diferença
Nem toda substituição gera o mesmo impacto. De modo geral, quase todas as atividades analisadas estiveram associadas a menor risco de depressão, com destaque para:
- Esportes e exercícios físicos, que apresentaram a maior proteção
- Atividade física no trabalho ou estudo
- Deslocamento ativo, como caminhar ou pedalar
- Sono adequado
Por outro lado, substituir apenas 30 minutos de televisão por tarefas domésticas não mostrou efeito significativo.
A prática esportiva se destacou consistentemente. Entre adultos mais velhos, por exemplo, foi a única atividade associada a redução mensurável no risco de depressão.
Diferenças entre faixas etárias
Os efeitos variaram conforme a idade. Entre idosos, a redistribuição do tempo de TV para atividades gerais não alterou significativamente os índices de depressão, exceto quando envolvia prática esportiva.
Já nos adultos mais jovens, a substituição por atividade física não demonstrou impacto relevante. Uma possível explicação é que esse grupo já apresenta níveis mais elevados de atividade física, ultrapassando o limiar necessário para proteção adicional contra depressão.
Como o estudo foi conduzido
Os resultados são baseados no estudo populacional holandês Lifelines, que acompanhou 65.454 adultos sem depressão inicial ao longo de quatro anos. A investigação foi conduzida por Rosa Palazuelos-González e colaboradores.
Os participantes relataram o tempo dedicado a:
- Televisão
- Exercícios e esportes
- Atividade física ocupacional
- Tarefas domésticas
- Sono
- Deslocamento ativo
Os diagnósticos de transtorno depressivo maior foram estabelecidos por meio da Mini Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional, garantindo rigor metodológico.
Importância da descoberta
Estratégias preventivas acessíveis e simples podem ter impacto coletivo significativo. Reduzir o tempo sedentário, especialmente diante da televisão, surge como uma intervenção prática e viável.
Além disso, a pesquisa reforça que não se trata apenas de eliminar um hábito, mas de substituí-lo por comportamentos protetores, principalmente atividade física estruturada.
Pequenas mudanças consistentes podem representar grandes ganhos para o cérebro.

