Detalhe no DNA explica por que pessoas da mesma família são diferentes

Genes alelos são versões de um mesmo gene que explicam parte da diversidade biológica (Imagem: Getty images)

Quando estudamos genética, algumas palavras parecem semelhantes, mas representam conceitos diferentes. Gene, alelo, cromossomo e DNA estão relacionados, porém não significam a mesma coisa. Entender essa diferença é fundamental para compreender desde características herdadas dos pais até a origem de determinadas doenças genéticas.

Mas, afinal, o que são genes alelos?

Os alelos são diferentes versões de um mesmo gene. Eles ocupam a mesma posição, chamada lócus, em cromossomos correspondentes. Como uma pessoa normalmente recebe um cromossomo de cada par do pai e outro da mãe, pode carregar duas versões de determinado gene.

Essas versões podem ser iguais ou diferentes. É justamente essa combinação que participa da formação de muitas características biológicas.

Gene e alelo não são a mesma coisa

Uma maneira simples de entender é imaginar que um gene funciona como uma receita genética para determinada característica ou função biológica. O alelo, por sua vez, representa uma versão específica dessa receita.

Por exemplo, determinado gene pode apresentar diferentes alelos na população. Eles podem surgir por alterações na sequência do DNA e, dependendo do caso, modificar a quantidade ou a forma de uma proteína produzida pela célula.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

Portanto, é mais correto dizer que um gene pode apresentar diferentes alelos, e não que gene e alelo são sinônimos.

Essa distinção também ajuda a compreender por que indivíduos da mesma espécie podem apresentar diferenças em características como pigmentação, metabolismo, resposta a medicamentos e predisposição a determinadas condições.

Onde os alelos ficam no DNA?

Os alelos estão localizados em uma posição correspondente nos cromossomos homólogos. Em seres humanos, as células somáticas possuem normalmente 23 pares de cromossomos, totalizando 46 cromossomos. Em cada par, um cromossomo é herdado da mãe e o outro do pai.

Assim, para muitos genes, uma pessoa possui duas cópias, cada uma localizada na mesma região dos cromossomos homólogos. Essas cópias podem ser:

  • Iguais, situação chamada de homozigose;
  • Diferentes, situação chamada de heterozigose.

Imagine, por exemplo, que um determinado gene possua os alelos A e a. Uma pessoa poderia apresentar AA, Aa ou aa, dependendo da combinação herdada.

Dominante e recessivo: onde os alelos entram?

É aqui que aparecem dois conceitos muito conhecidos da genética: dominante e recessivo. Um alelo dominante pode determinar uma característica mesmo quando está presente em apenas uma das duas cópias. Já um alelo recessivo, em modelos clássicos de herança, manifesta determinada característica quando está presente nas duas cópias.

Entretanto, essa explicação é uma simplificação. Nem toda característica humana segue uma herança dominante ou recessiva simples.

Muitas características dependem da ação conjunta de vários genes, além da influência do ambiente. Em outros casos, diferentes variantes podem modificar a atividade de um gene sem se encaixar perfeitamente no modelo mendeliano tradicional.

Os alelos ajudam a explicar nossa diversidade

Genes alelos geram a diversidade biológica e explicam as diferenças físicas entre pessoas (Imagem: Getty images)

A existência de diferentes alelos é uma das bases da variabilidade genética. Uma alteração na sequência do DNA pode produzir uma nova variante. Se essa alteração for transmitida entre gerações, ela pode passar a fazer parte da diversidade genética de uma população.

Essas variantes podem ter efeitos muito diferentes. Algumas não provocam alterações perceptíveis. Outras podem influenciar características biológicas, enquanto determinadas variantes podem aumentar ou diminuir o risco de doenças.

Além disso, um alelo não precisa necessariamente produzir uma característica visível. Alterações genéticas também podem afetar processos celulares, produção de proteínas, funcionamento do sistema imunológico e regulação da expressão gênica.

Um estudo de 2026 mostra como as variantes atuam

A genética moderna está permitindo observar essas diferenças com uma resolução cada vez maior. Um exemplo recente foi publicado na revista Nature, em 28 de outubro de 2026, por A.S.E. Cuomo, autor principal, e colaboradores.

O estudo analisou dados de mais de 5 milhões de células, provenientes de 28 tipos de células imunológicas, associados ao sequenciamento genômico de 1.925 indivíduos. Os pesquisadores identificaram efeitos de variantes genéticas comuns e raras sobre a expressão de milhares de genes.

Um dos resultados mais interessantes foi perceber que muitos desses efeitos dependem do tipo celular. Em outras palavras, uma determinada variante genética pode influenciar a atividade de um gene de maneira muito diferente dependendo da célula analisada.

Isso ajuda a mostrar por que o conceito de alelo é mais importante do que simplesmente pensar em uma característica como determinada por um único “gene”.

Alelos podem causar doenças?

Alguns alelos estão associados a alterações que podem aumentar a probabilidade de determinadas doenças ou, em certos casos, contribuir diretamente para condições genéticas.

Porém, é importante evitar uma interpretação simplista. Ter um determinado alelo não significa automaticamente desenvolver uma doença.

O efeito de uma variante pode depender de outros genes, do ambiente, da idade, do estilo de vida e de diversos mecanismos biológicos.

Além disso, existem variantes que podem ser benignas, enquanto outras apresentam efeitos ainda desconhecidos. Por isso, a genética médica utiliza informações de diferentes fontes para interpretar o significado de uma alteração encontrada no DNA.

Por que entender alelos é importante?

O conceito aparece em praticamente todos os níveis da genética, desde os experimentos clássicos de Gregor Mendel até as modernas análises de sequenciamento do genoma. Compreender o que são alelos ajuda a interpretar temas como:

hereditariedade, mutações, doenças genéticas, diversidade humana, evolução, grupos sanguíneos e testes genéticos.

Em resumo, alelo é uma versão de um gene. Como herdamos cópias dos nossos genes de ambos os pais, podemos carregar duas versões iguais ou diferentes de determinados genes. A combinação dessas versões, junto com outros genes e fatores ambientais, contribui para a enorme diversidade encontrada entre os seres humanos.

Essa pequena diferença na sequência do DNA pode parecer insignificante, mas, em determinadas situações, é capaz de alterar profundamente o funcionamento de uma célula.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes