Mulheres sentem mais dor que homens em todas as regiões do corpo, aponta estudo

Estudo global encontrou mais dor relatada entre mulheres. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

A dor não se distribui de maneira igual entre as pessoas. Um dos maiores levantamentos já realizados sobre o tema encontrou uma diferença consistente entre homens e mulheres: elas relataram mais dor em todas as 11 regiões anatômicas analisadas.

O resultado chama atenção pelo tamanho da pesquisa. Os pesquisadores reuniram informações de 6.125.459 pessoas, provenientes de 902 fontes de dados populacionais em 118 países. A análise acompanhou diferentes fases da vida e avaliou locais como cabeça, face, pescoço, ombros, costas, abdômen, quadris, joelhos, mãos e pés.

O estudo é particularmente interessante porque mostra que as diferenças não aparecem apenas em uma doença ou região específica. Elas atravessam diferentes tipos de dor e permanecem presentes ao longo da vida.

Uma diferença que aparece em todo o corpo

Os pesquisadores observaram que a prevalência de dor variou bastante conforme a região analisada. A dor facial, por exemplo, atingiu cerca de 2% da população, enquanto a dor nas costas chegou a aproximadamente 40%.

Mesmo com essa variação, um padrão permaneceu constante: as mulheres apresentaram maior frequência de dor em todos os 11 locais avaliados.

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As maiores diferenças foram observadas em:

  • Dor facial: risco relativo de 1,83
  • Dor de cabeça: risco relativo de 1,74
  • Dor abdominal ou no estômago: risco relativo de 1,60

Isso não significa que toda mulher sentirá mais dor do que todo homem. O resultado representa uma diferença observada em nível populacional, e não uma regra para cada indivíduo.

A idade também muda a forma como a dor aparece

Dores mudam com a idade: picos em jovens e aumento musculoesquelético. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Outro aspecto importante foi a relação entre dor e envelhecimento. Embora a ocorrência de qualquer dor corporal tenha aumentado progressivamente ao longo da vida, diferentes tipos de dor seguiram trajetórias próprias.

A maior aceleração na frequência de dor ocorreu, de modo geral, antes dos 55 anos. Dores musculoesqueléticas, especialmente nas costas, quadris e joelhos, aumentaram de maneira importante durante a vida adulta.

Entretanto, algumas dores atingiram um pico e depois diminuíram. A dor de cabeça apresentou pico por volta dos 34 anos, enquanto a dor abdominal atingiu seu ponto máximo aproximadamente aos 23 anos.

Esse comportamento mostra que envelhecer não significa simplesmente acumular dor continuamente. O tipo e a intensidade da dor podem mudar conforme a fase da vida.

País onde a pessoa vive também faz diferença

A pesquisa encontrou ainda uma diferença inesperada relacionada ao nível de desenvolvimento dos países.

Em idades mais avançadas, pessoas que vivem em países com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) apresentaram uma frequência muito maior de dor corporal do que aquelas em países de IDH elevado.

A partir dos 40 anos, essa diferença começou a ficar mais evidente. Aos 80 anos ou mais, a prevalência de qualquer dor corporal foi 30,6 pontos percentuais maior nos contextos de menor IDH. Para a dor lombar, a frequência nos países de menor IDH chegou perto de ser duas vezes maior nas idades mais avançadas.

Três fatores associados à carga de dor

O levantamento também avaliou alguns fatores modificáveis. Tabagismo, obesidade e baixa renda estiveram associados à ocorrência de dor em diferentes regiões do corpo.

A obesidade apresentou relações particularmente importantes com áreas que sustentam o peso corporal. O risco associado foi maior para dor no pé ou tornozelo, joelho e quadril. Já o tabagismo apresentou associação com diferentes locais, com destaque para a dor facial.

Ainda assim, esses fatores explicaram apenas parte da carga global de dor, indicando que existem outros elementos sociais, ambientais, biológicos e comportamentais envolvidos.

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A grande análise por trás da descoberta

O estudo foi publicado em 5 de outubro de 2026 na revista científica Nature Medicine. O primeiro autor é Matt Fillingim, e a pesquisa utilizou dados coletados entre 1990 e 2025, envolvendo participantes de 5 anos até mais de 100 anos de idade.

Os resultados ajudam a construir um panorama mais detalhado de como a dor muda ao longo da vida e entre diferentes populações. Além disso, podem contribuir para identificar grupos que necessitam de maior atenção na prevenção e no tratamento da dor.

Para quem sente dores persistentes, porém, os dados populacionais não substituem uma avaliação médica. Dor frequente, intensa ou que interfere nas atividades do dia a dia merece investigação individual, independentemente de idade ou sexo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn