A melatonina é conhecida principalmente por sua participação na regulação do sono, mas seus efeitos no organismo podem ir além do descanso noturno. Uma pesquisa recente identificou uma possível relação entre a suplementação desse hormônio e a redução da grelina, substância envolvida no estímulo da fome. O resultado chama a atenção por investigar uma conexão entre o sono e os mecanismos biológicos que regulam a alimentação.
Publicado em 18 de outubro de 2026, na revista científica Scientific Reports, o estudo avaliou mulheres com sobrepeso ou obesidade e encontrou uma diferença nos níveis de grelina após oito semanas de suplementação de melatonina. Entretanto, os pesquisadores não observaram mudanças significativas em outros indicadores relacionados ao apetite, o que exige cautela na interpretação dos resultados.
A relação entre sono, hormônios e vontade de comer
A grelina é um hormônio produzido principalmente no estômago e conhecido por participar da sinalização da fome. Seus níveis variam conforme o estado alimentar e outros fatores fisiológicos, ajudando o organismo a regular a ingestão de alimentos.
Já a melatonina é produzida naturalmente pelo cérebro, especialmente durante a noite, em resposta à diminuição da luminosidade. Sua principal função é sincronizar o relógio biológico e contribuir para a organização do ciclo sono-vigília.
Esses dois sistemas fazem parte de uma rede complexa de mecanismos que influenciam o comportamento alimentar. Dormir mal, por exemplo, pode estar associado a alterações na regulação do apetite e a mudanças nas escolhas alimentares.
Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!
Entrar no Canal do WhatsAppAlém disso, existe o chamado apetite hedônico, que corresponde à vontade de comer alimentos saborosos por prazer, mesmo quando não há uma necessidade energética evidente. Esse comportamento pode ser influenciado por fatores emocionais, ambientais e biológicos.
Por isso, investigar se a melatonina interfere nos hormônios ligados à alimentação pode ajudar a compreender melhor a conexão entre o sono e o controle do apetite.
Oito semanas de suplementação revelaram uma diferença
A pesquisa foi conduzida por Malihe Karamizadeh e colaboradores e publicada na revista Scientific Reports em 18 de outubro de 2026.
O estudo piloto randomizado e controlado por placebo contou com 41 mulheres com sobrepeso ou obesidade que apresentavam níveis elevados de apetite hedônico. As participantes foram divididas em dois grupos: um recebeu 5 mg de melatonina por dia, enquanto o outro recebeu placebo, durante oito semanas.
Os pesquisadores acompanharam diferentes parâmetros, incluindo os níveis sanguíneos de grelina e de 2-araquidonoilglicerol (2-AG), uma molécula envolvida no sistema endocanabinoide, que participa da regulação do apetite e de outras funções fisiológicas.
Ao final do experimento, o grupo que recebeu melatonina apresentou níveis de grelina significativamente menores do que o grupo placebo.
A concentração média foi de 4,35 pg/mL entre as participantes que utilizaram melatonina, contra 4,78 pg/mL no grupo de controle.
Apesar dessa diferença, não foram identificadas alterações significativas entre os grupos no 2-AG, no apetite hedônico, na ingestão alimentar ou no peso corporal.
Menos grelina não significa emagrecimento garantido
Embora a redução da grelina seja um resultado relevante, ela não demonstra, por si só, que a melatonina diminui a fome percebida ou facilita a perda de peso.
Isso acontece porque o comportamento alimentar depende de diversos mecanismos, incluindo outros hormônios, sinais cerebrais, qualidade do sono, hábitos cotidianos e fatores emocionais. Uma mudança em um marcador biológico não significa necessariamente uma transformação perceptível na rotina alimentar.
Além disso, a pesquisa foi um estudo piloto com uma amostra pequena e composta exclusivamente por mulheres com sobrepeso ou obesidade que apresentavam alto apetite hedônico. Portanto, os resultados não podem ser automaticamente generalizados para homens, pessoas com peso considerado saudável ou indivíduos com outros padrões alimentares.
Novos estudos, com mais participantes e períodos de acompanhamento maiores, serão necessários para esclarecer se a melatonina exerce efeitos consistentes sobre a fome e o controle do peso.
Leia mais:
Melatonina não deve ser usada como estratégia para emagrecer
Os resultados não justificam o uso da melatonina com a finalidade de reduzir o apetite ou perder peso. Embora o suplemento seja utilizado para determinadas questões relacionadas ao sono, sua indicação depende das características de cada pessoa, e o uso pode provocar efeitos adversos e interações com medicamentos.
A descoberta mais importante é que a suplementação esteve associada a uma alteração específica na grelina, mas não produziu mudanças significativas nos demais indicadores avaliados.
Assim, manter horários regulares de sono, adotar uma alimentação equilibrada e praticar atividade física continuam sendo medidas importantes para a saúde metabólica. A melatonina não substitui esses cuidados nem deve ser considerada um tratamento para a obesidade com base apenas nesse estudo.
