Um medicamento desenvolvido durante a pandemia de Covid-19 pode ganhar um papel inesperado no combate a uma das maiores ameaças virais conhecidas atualmente.
Evidências científicas recentes indicam que um antiviral oral originalmente criado para o coronavírus apresentou resultados promissores contra o vírus Nipah, um patógeno zoonótico com alta letalidade e sem tratamento específico aprovado.
Por que o vírus Nipah preocupa tanto a ciência
O vírus Nipah pertence à família dos henipavírus e circula principalmente em regiões do sul e sudeste da Ásia. Transmitido por morcegos frugívoros, o patógeno pode infectar humanos por contato direto ou por alimentos contaminados. Desde sua identificação no fim da década de 1990, surtos recorrentes vêm sendo registrados, frequentemente com desfechos graves.
O risco associado ao Nipah se deve a uma combinação crítica de fatores:
- Taxa de mortalidade elevada, entre 40% e 75%
- Evolução rápida para complicações neurológicas severas, como encefalite
- Possibilidade de sintomas tardios, dificultando o rastreamento
- Ausência de vacina ou terapia antiviral específica
Diante desse cenário, o vírus é classificado como prioridade global para pesquisa e desenvolvimento.
Reposicionamento de fármacos ganha força
Com poucas opções terapêuticas disponíveis, pesquisadores passaram a investigar uma estratégia já validada durante a pandemia: o reposicionamento de medicamentos. Nesse contexto, o antiviral oral VV116, criado para tratar a Covid-19, foi avaliado quanto à sua ação contra o vírus Nipah.
Os resultados foram apresentados no artigo científico “The oral nucleoside drug VV116 is a promising candidate for treating Nipah virus infection”, publicado na revista Emerging Microbes & Infections. O estudo, liderado por Yumin Zhang, foi publicado em 19 de novembro de 2025 (DOI: 10.1080/22221751.2025.2587983).
Resultados laboratoriais e em modelos animais
Nos experimentos conduzidos pela equipe, o VV116 demonstrou capacidade de inibir a replicação de diferentes cepas do vírus Nipah, incluindo variantes associadas a surtos recentes. Em modelos animais utilizando hamsters dourados, o antiviral apresentou resultados expressivos.
Entre os principais achados estão:
- Aumento significativo da taxa de sobrevivência após administração oral
- Redução da carga viral em órgãos críticos como pulmões, baço e cérebro
- Menor comprometimento dos tecidos mais afetados pela infecção
Esses dados sugerem que o medicamento interfere diretamente no ciclo de replicação viral, mecanismo semelhante ao observado em sua atuação contra o coronavírus.
Impacto para a saúde pública global
O fato de o VV116 já ter um perfil de segurança conhecido em humanos torna essa descoberta particularmente relevante. Em situações de emergência sanitária, isso pode acelerar a implementação de estratégias terapêuticas e preventivas, especialmente para grupos de alto risco, como profissionais de saúde e populações expostas a surtos.
Além disso, a pesquisa reforça a importância de combinar antivirais reaproveitados com novas abordagens biotecnológicas, como nanocorpos altamente específicos, ampliando as possibilidades de resposta rápida a vírus emergentes.

