Um medicamento experimental administrado por via oral está sendo investigado por uma estratégia diferente contra a doença de Alzheimer: estimular mecanismos naturais de defesa do cérebro. A substância, chamada VG-3927, foi desenvolvida para atuar em um receptor envolvido na atividade da micróglia, células que ajudam a proteger o tecido nervoso e remover resíduos celulares.
Os primeiros testes em seres humanos apresentaram resultados favoráveis em relação à tolerabilidade e mostraram que o composto consegue alcançar o sistema nervoso central. Apesar disso, ainda é cedo para afirmar que ele melhora a memória ou retarda a evolução da doença.
Receptor cerebral entra no centro da estratégia
A pesquisa investiga o TREM2, uma proteína presente principalmente na micróglia. Essas células participam da resposta a lesões, da remoção de resíduos e da regulação do ambiente em que os neurônios funcionam.
Alterações genéticas que prejudicam a atividade do TREM2 estão associadas a um risco maior de desenvolver Alzheimer de início tardio. Por esse motivo, estimular esse receptor tornou-se uma linha de investigação para desenvolver tratamentos capazes de atuar nos mecanismos da doença.
O VG-3927 é um agonista do TREM2, ou seja, uma substância projetada para ativar esse receptor. Sua ação envolve também a proteína adaptadora DAP12, que participa da transmissão de sinais dentro das células.
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Entrar no Canal do WhatsAppA expectativa é que essa interação ajude a regular a atividade da micróglia. Entretanto, estimular uma via biológica não significa necessariamente impedir o Alzheimer, e essa possibilidade ainda precisa ser demonstrada em ensaios clínicos.
Experimentos apontaram mudanças na inflamação e na remoção de proteínas
Antes da avaliação em humanos, os pesquisadores estudaram o composto em modelos celulares derivados de células-tronco humanas. Os experimentos indicaram redução de substâncias inflamatórias e de marcadores relacionados a danos nos neurônios.
Em camundongos com características de amiloidose cerebral, outro composto da mesma linha de pesquisa, o VG-3909, foi associado ao aumento da capacidade da micróglia de englobar a beta-amiloide, proteína que forma depósitos encontrados no cérebro de pessoas com Alzheimer.
Os animais também apresentaram mudanças na atividade genética dessas células e no metabolismo cerebral da glicose.
Esses achados ajudam a explicar o interesse científico pela estratégia. Contudo, os resultados obtidos em células e animais não comprovam que o medicamento terá o mesmo efeito em pacientes. Além disso, parte dos resultados pré-clínicos foi observada com o VG-3909, e não diretamente com o VG-3927.
Primeiro estudo clínico avaliou 115 participantes
O estudo foi publicado em 14 de outubro de 2026, na revista científica Science Translational Medicine. O primeiro autor é Borislav Dejanovic, e o ensaio clínico de fase 1 foi registrado sob o número NCT06343636.
A pesquisa incluiu 115 participantes e utilizou um desenho randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Os pesquisadores avaliaram doses únicas e repetidas, de até 140 miligramas.
Nas condições estudadas, o VG-3927 foi considerado bem tolerado. As análises também indicaram boa penetração no sistema nervoso central, característica importante para um medicamento destinado a agir no cérebro.
Outro resultado foi a redução dos níveis de TREM2 solúvel no líquido cefalorraquidiano, fluido que envolve o cérebro e a medula espinhal. Essa alteração foi interpretada como um sinal de interação do composto com seu alvo biológico.
No entanto, esse resultado é um marcador farmacológico, não uma comprovação de melhora cognitiva. O estudo de fase 1 foi desenvolvido principalmente para avaliar segurança, tolerabilidade e comportamento do medicamento no organismo.
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Quando o VG-3927 poderá chegar aos pacientes?
O composto, que também recebeu a designação SAR448851, ainda está em desenvolvimento. Novos estudos serão necessários para verificar se ele realmente preserva a memória, reduz o declínio cognitivo ou modifica a progressão do Alzheimer.
Também será necessário acompanhar possíveis efeitos adversos durante períodos mais longos de tratamento. Portanto, o VG-3927 não deve ser considerado um medicamento aprovado ou uma opção terapêutica disponível para pacientes.
A pesquisa abre uma nova frente de investigação sobre a relação entre as células de defesa cerebrais e as doenças neurodegenerativas. Para acompanhar outras descobertas sobre medicamentos, cérebro e saúde, leia também os conteúdos do Fala Ciência.
